Do leite materno ao prato
A melhor época para se adquirir bons hábitos alimentares é logo após a retirada do leite materno. Nessa fase da vida, a criança tem os primeiros contatos com a papinha de frutas e a papinha salgada. Ela aprende e cultiva o vínculo com o alimento saudável, passando a consumi-lo de maneira prazerosa. A partir de então, mesmo quando provar o sabor forte dos alimentos industrializados, ela não abandonará esse hábito , defende a nutricionista do Citen, Amanda Epifanio.
Passada essa fase, quando a criança passar a fazer suas opções alimentares, ainda caberá aos pais a organização das refeições diárias, evitando forçar a criança a consumir o que ela não gosta e oferecendo a ela opções de preparo e versatilidade que facilitem a aceitação do cardápio. Nada melhor do que ter fome na hora das refeições, para que o alimento seja consumido de maneira fácil e divertida. E para ter fome é preciso evitar os beliscos entre elas.
A equipe multidisciplinar no tratamento da obesidade infantil
Os pais normalmente demoram a perceber que o filho está fora do peso ideal. O fazem normalmente quando a criança começa a ganhar apelidos desagradáveis na escola - a obesidade também pode deixar seqüelas psicológicas - ou quando surgem as primeiras queixas de mal estar físico. Muitos pais acreditam que o filho vai emagrecer quando chegar à pré-adolescência e ganhar altura. Entretanto, é bom reforçar que a obesidade não é um problema que se resolve sozinho. O jovem que chega à puberdade obeso tem 80% de chance de se tornar um adulto obeso.
Por entrar muito profundamente no seio da família, o tratamento da criança e do adolescente obeso requer o suporte de uma equipe multiprofissional. São muitos aspectos físicos, psicológicos e comportamentais que precisam ser alterados, em todos os membros da família, para que a criança consiga emagrecer, preservando a saúde e mantendo o ritmo de crescimento. Inicialmente, devem ser afastadas as causas endócrinas da obesidade infantil, com a investigação da função tireoideana, da resistência insulínica, das disfunções da puberdade, das doenças ovarianas na menina e das alterações de comportamento, como a ansiedade que predispõe à compulsão. Posteriormente, uma conversa com a nutricionista pode esclarecer erros e práticas alimentares que podem ser corrigidas e, posteriormente, implantam-se as modificações no cardápio infantil.
O preparo do cardápio de uma criança obesa requer a participação de uma nutricionista hábil em realizar trocas inteligentes e saudáveis para que a criança não se sinta prejudicada. Através de um cardápio que atenda às necessidades individuais de cada criança e ofereça à ela opções saborosas de alimentos, a equipe multidisciplinar consegue a adesão desse pequeno paciente à dieta, pois a criança não se verá obrigada a trocar batata frita por rúcula, quando ela detesta rúcula, mas batata frita por batata assada, concorda Amanda Epifanio. Além de diminuir o consumo de guloseimas e estimular o consumo de alimentos saudáveis, pai e mãe precisam ficar atentos ao quanto obrigam os filhos a comer. A mania de exigir que o filho não deixe no prato nem um grão sequer de arroz deve ser abandonada. Cada criança sabe seu limite. Os pais precisam respeitar isto.
Finalmente, a equipe se completa com o trabalho da psicóloga, que escuta e compreende o pequeno paciente e sua família de uma forma que, nós, médicos, não dominamos. Através do alcance de sua interferência, é possível atingir bons resultados com este paciente, pois obtemos subsídios sobre o quanto a obesidade influencia a vida dessas crianças e de que maneira ela interfere nos seus relacionamentos sociais.
Tratando a família
Além de transferir gens aos filhos, os pais transferem também o seu próprio estilo de vida. As crianças observam atentamente e repetem as ações dos pais. Muitas se negam a absorver um comportamento diferente do que o que foi ensinado pela família. Não há como fazê-los mais ativos, se os pais são sedentários. Não há como
obrigá-los a tomar café da manhã, se os familiares saem em jejum para trabalhar. Não há como fazer com que eles comam menos guloseimas, se os próprios pais abusam do chocolate.
Não é da criança a obrigação de fazer as compras do supermercado e ela come o que os pais compram. São os pais os responsáveis pelo cardápio da família e é tarefa deles oferecer opções saborosas e saudáveis de alimentos às crianças. Quando não há organização por parte dos pais, as crianças ficam à mercê da propaganda de alimentos, comem guloseimas e beliscam fora de hora. Dessa forma, é claro que não vão comer direito nos horários das refeições , complementa a nutricionista Amanda.
Quando investigamos o preparo dos alimentos nas residências dos pacientes, as causas da obesidade infantil tornam-se mais claras. Em muitos casos, os erros não estão na forma de preparo dos alimentos, mas na escolha dos mesmos. Na maioria das vezes, a família consome alimentos industrializados em excesso, são sopões, macarrões instantâneos, lanches monótonos e pouco nutritivos... E os pais alegam não ter tempo para cozinhar e não saber preparar uma refeição. Dizem ainda que a criança não gosta de verduras e legumes e que prefere o hambúrguer. Certamente, esta criança não foi habituada, ainda bebê, a apreciar o sabor suave dos alimentos saudáveis e os acha muito sem graça, sem sabor.
Quando os pais trazem os filhos obesos ao consultório, devem estar dispostos a fazer também a sua parte no tratamento da criança. Devem assumir o papel na organização e no preparo dos alimentos. Devem entender que o fato de trabalharem muito não pode justificar a ausência de uma mesa posta e da família à sua volta, se alimentando corretamente.
Leia a primeira parte do artigo: Será que é sina: pais obesos e filhos obesos?
Nas idas ao supermercado, você costuma trocar alguns produtos por outro similar mais saudável?