Commodities agrícolas, segurança alimentar, subsídios aos agricultores, expansão dos biocombustíveis e escalada dos preços dos grãos nos mercados futuros... Ultimamente, estamos lendo e ouvindo muito sobre um mundo complexo: o da produção e comercialização de alimentos. De tudo o que ouvimos, já entendemos, pelo menos - por intuição - que todas estas notícias ecoam como maus presságios. Isso porque elas rimam bem com escassez e aumento dos preços dos alimentos, alcançando não somente itens de luxo culinários como o foie gras, azeites, vinhos e embutidos, mas avançando sobre o nosso bom e velho arroz com feijão.
Na crise da produção dos alimentos, estamos falando e lidando com gente graúda e especuladores, que anteriormente estavam envolvidos e embriagados com os índices dos preços dos barris de petróleo e das barras de ouro e, repentinamente, foram atraídos pela alta firme e consistente no valor dos grãos: soja (107%), trigo (136%), milho (125%) e arroz (217%), nos chamados mercados futuros, desde o início de 2006. Observem nesses índices, a riqueza e a sedução exercida pelo arroz brasileiro e o risco do desabastecimento
interno causado pela possível exportação a preço de ouro e de petróleo do arroz brasileiro para países carentes deste alimento básico.
Enquanto os governantes, economistas e investidores discutem as influências do crescimento populacional no mundo, a destinação das lavouras do milho americano para a produção de biocombustíveis e o aquecimento global, precisamos rever a economia doméstica, uma vez que ela será certamente influenciada por essa onda de aumentos na macroeconomia.
Comer fora tem nos revelado o quanto os setores produtivos se aproveitam ou se antecipam às crises e às elevações de preço dos alimentos. Isso é facilmente constatado pelo aumento flagrante nos preços dos alimentos dos restaurantes, fazendo com que jantar fora no sábado à noite ou almoçar num restaurante no domingo sejam programas criteriosamente reavaliados. Até o almoço diário dos que trabalham fora passou a pesar mais na economia doméstica, valendo a pena a cotização para o preparo das refeições nas empresas, mesmo as de pequeno porte.
Como comprar?
Em nossas compras semanais ou mensais nas feiras e nos supermercados, os preços já sofreram uma elevação maior do que em períodos anteriores e o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Getúlio Vargas vem apontando o grupo dos alimentos como o maior responsável pelas altas observadas. Uma vez que os aumentos são ainda pequenos e de um grupo específico de alimentos, estes podem passar desapercebidos no cômputo geral.
É hora de ficarmos atentos aos preços, priorizando a compra de alimentos da estação, como frutas e verduras, e evitando aqueles com preços abusivos, como os de origem controlada ou de grife. O pãozinho, derivado do trigo, já teve um aumento de 10,7% nos últimos 4 meses e a projeção é de um novo aumento de mais 10% provocado pela recente alta dos preços do trigo, segundo dados do Sindicato da Indústria da Panificação e Confeitaria de São Paulo (Sindipan-SP). Como ele, outros produtos derivados da mesma origem também deverão sofrer elevação.
Devido aos aumentos dos preços do arroz nos mercados mundiais e à escassez do produto no mundo, grandes produtores mundiais do produto como China, Vietnã, Egito e Índia impuseram restrições às exportações. Resultado: o arroz brasileiro pode se tornar alvo de exportações e se tornar escasso ou ter seu preço majorado. No ano de 2007, o arroz teve uma alta de 70% no mercado internacional e segundo informações da BBC para o Leste Asiático, cerca de 3 bilhões de pessoas, quase metade da população mundial, dependem do arroz como alimento base de suas dietas.
No Brasil, o preço do arroz vinha caindo e contribuindo com o IPC, que em março, teve uma variação positiva de 0,31% nos preços apurados pela Fipe, na cidade de São Paulo. O arroz ficou na sexta posição entre as maiores contribuições de queda do índice geral, com deflação de 1,23%. O produto ficou atrás do feijão (-12,38%), frango (-3%), alcatra (-3,13%) e batata (-4,3%). Em abril, seu preço começou a apresentar uma tendência de aumento.
Reflexo no prato
Uma vez que nossa dieta tem nos carboidratos o equivalente a 50% das calorias ingeridas e que o arroz, o trigo, o milho e seus derivados são os maiores representantes desse grupo de macronutrientes, podemos ter uma idéia do potencial deletério do aumento de preços e da escassez desses produtos em nossas mesas. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a batata será a principal arma contra a pobreza e a fome neste ano. O Brasil ainda é rico em outras espécies de tubérculos e raízes que podem sair ainda mais em conta para o bolso da população, como, por exemplo, a mandioca e o inhame.
Resta-nos prestar atenção especial aos preços dos alimentos no dia a dia. Aquelas pequenas oscilações que nos passam desapercebidas e que vamos incorporando inadvertidamente não são admissíveis. Devemos aprender a escolher entre um e outro carboidrato, para que ele não falte em nossas mesas. Resta-nos ainda a torcida, para que nossa extensão de terras plantáveis seja bem administrada e que a força da crise mundial de alimentos não atinja em cheio o prato do brasileiro.
Ellen Simone Paiva é endocrinologista, nutróloga e diretora clínica do CITEN - Centro Integrado de Terapia Nutricional.
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