Os cuidados em crianças e adolescentes com diabetes

A campanha 2008 vem para lutar por um tratamento para todos

Por Especialista - publicado em 31/10/2008


Lutar para que nenhuma criança fique sem tratamento ou morra por causa do diabetes é o desafio social que a International Diabetes Federation (IDF) propõe ao mundo.

A proposta baseia-se nas novas estatísticas da entidade que revelam que a cada ano mais de 70 mil crianças desenvolvem diabetes tipo 1, chegando a 440 mil crianças com menos de 14 anos acometidas pela doença em todo o mundo.

O diabetes tipo 2, que antes era característico do adulto, avança sobre os jovens, alcançando as crianças, especialmente entre minorias étnicas. O aumento de casos do diabetes tipo 2 na infância e na adolescência é decorrência da epidemia mundial de obesidade e da falta de atividade física.
Atualmente, mais de 200 crianças desenvolvem a doença a cada dia. Por isto, neste ano, como em 2007, o tema de mobilização da entidade que representa os diabéticos em todo o mundo deseja reforçar a necessidade de fornecimento de medicamentos e a institucionalização de programas que disponibilizem alimentos saudáveis e que incentivem a prática de atividades físicas para crianças e adolescentes em todo o mundo.

O diabetes é uma das doenças crônicas mais comuns na infância. Pode surgir em qualquer idade, até mesmo em bebês e em crianças em idade pré-escolar. Se não tratado adequadamente, pode causar complicações graves, que englobam a perda da visão e a amputação de membros. O diabetes tem um impacto particular na vida dos jovens e de suas famílias, pois o dia-a-dia é alterado de repente: medições de glicemia, aplicação de insulina, regulação da atividade física e da alimentação.

Por isso, é necessário prestar assistência às pessoas que convivem com as crianças e com os adolescentes diabéticos. A orientação à família tem por objetivo fazer com que os mais jovens cheguem à idade adulta sem nenhuma complicação, entendendo e atuando ativamente nos seus tratamentos, com autonomia, independência e cientes de que suas limitações dependerão da forma com que eles encaram a doença.

Abaixo, segue os esclarecimentos para as principais dúvidas:
- As crianças são mais vulneráveis à doença? As crianças são mais susceptíveis à falta da insulina, não podem esperar muito tempo pelo tratamento sem a medicação, pois a elevação da glicemia pela falta de insulina se agrava rapidamente num quadro chamado de cetoacidose - uma complicação aguda e grave do diabetes dependente de insulina. Além dessa grave complicação aguda, as crianças são mais vulneráveis às complicações crônicas como a cegueira, a insuficiência renal e o grande leque de conseqüências chamadas neuropatias. São mais vulneráveis uma vez que convivem mais tempo com os elevados níveis de glicemia dado à precocidade da instalação da doença.

- A IDF - International Diabetes Federation - vem registrando um aumento do número de mortes causada justamente pela cetoacidose diabética no mundo. O que significa esse quadro?
É vergonhoso, mas a maior causa de morte em crianças diabéticas no mundo ainda é a falta de acesso à insulina. Isso pode parecer absurdo, mas é a dura realidade de alguns países pobres, onde a falta de acesso à insulina ou às condições de acondicioná-la adequadamente, numa geladeira, torna impossível o uso do hormônio e o tratamento destas crianças. A expectativa de vida para algumas crianças com diabetes na Zâmbia é de 11 anos, em Mali, é de 30 meses e, em Moçambique, as crianças com diabetes tipo 1 morrem um ano após o diagnóstico da doença.

- Até pouco tempo atrás, o diabetes era conhecido como tipo 1, diabetes juvenil, ou tipo 2, diabetes adulto.  Recentemente, as entidades que trabalham com a doença têm chamado a atenção para um crescimento do número de casos do tipo 2 em crianças e adolescentes. Este aumento pode ser atribuído a que fatores?
Ao avanço progressivo da obesidade sobre as populações jovens. Em alguns grupos étnicos, o diabetes tipo 2 alcançou ou até ultrapassou a forma mais comum do diabetes infantil. Durante o 19th World Diabetes Congress, realizado na Cidade do Cabo - África do Sul, a IDF apresentou um cenário pessimista: a atual geração de crianças vai enfrentar a luta contra a crescente epidemia de diabetes tipo 2. Se não forem tomadas atitudes para reverter as tendências atuais, quando esses jovens estiverem com 30, 40 anos, mais de 380 milhões de pessoas estarão com diabetes. Dados recentes indicam que 1 em cada 3 crianças nascidas nos EUA terá diabetes. Nas crianças pertencentes às minorias étnicas esse número sobe para 1 em 2.

Pesquisas recentes informam que na China, no Japão e nas Ilhas do Pacífico, 70% das crianças diagnosticadas com diabetes têm o tipo 2 da doença.

- A dieta destes povos é fator determinante para o aumento de casos de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes?
A explicação para esse fenômeno vem das rápidas e drásticas mudanças na dieta da população, no baixo nível de atividade física e no aumento do peso corporal das crianças de todo o mundo, em especial das crianças asiáticas, que passaram a consumir mais gordura animal, mais carnes, mais açúcar e menos frutas, vegetais e cereais. As mudanças de estilo de vida vêm sendo incorporadas pelos povos ocidentais também, que, em menor proporção, vêm sendo afetados pela obesidade infantil e pelo diabetes tipo 2, e, conseqüentemente pelas alterações do colesterol, pela hipertensão arterial, pela infiltração de gordura no fígado e pela maior incidência de doenças cardíacas em pacientes cada vez mais jovens. Apesar de sua aumentada taxa de incidência, o diabetes tipo 2 compreende apenas 3% do diabetes em crianças e adolescentes, quando considerada sua prevalência global.

- O diabetes tipo 1 continua, então, prevalente nas crianças e adolescentes?
Sim, o diabetes tipo 1 é aquele onde a criança depende de suprimentos exógenos de insulina para viver. De acordo com a IDF, 70.000 crianças desenvolvem esse tipo de diabetes anualmente. Cerca de 440.000 crianças abaixo de 14 anos têm diabetes tipo 1, em todo o mundo. Trata-se de uma doença auto-imune, onde uma produção maciça de anticorpos contra o pâncreas destrói as células produtoras de insulina, interrompendo a produção do hormônio e inviabilizando a vida sem insulina exógena. A incidência desse tipo de diabetes vem aumentando também, de acordo com estudos europeus e americanos: foi de 14,8 (entre 1978/1988) para 23,9 casos por 100.000 habitantes por ano, entre 2002/2004.

- Para a maioria das crianças diabéticas e seus pais, a hipoglicemia noturna é a complicação aguda mais temida da doença. É possível preveni-la?
A hipoglicemia noturna acontece porque as necessidades de insulina durante o sono não são constantes. Este perfil propicia quedas glicêmicas perigosas entre 2 e 4 horas da madrugada que podem passar despercebidas, devido ao próprio sono e à uma natural elevação da glicemia pela manhã, devido à participação de alguns hormônios. As necessidades de insulina noturnas variam de acordo com a escolha alimentar do jantar, com os exercícios físicos realizados ao entardecer ou à noite e até com os hormônios relacionados à puberdade, tornando difícil a titulação da dose de insulina que atenda à normalização da glicemia e à proteção contra a hipoglicemia noturna. Além da monitorização contínua de glicose, as novas insulinas e seus análogos em esquemas de aplicação que imitam o perfil do pâncreas normal e as bombas de infusão de insulina tornaram mais segura a vida destes pacientes durante o sono, permitindo também que seus pais possam dormir menos aflitos.


Saiba mais com a continuação do artigo:
Os cuidados em crianças e adolescentes com diabetes - Parte II

Dra. Ellen Simone Paiva é  médica é especializada em endocrinologia e nutrologia. Diretora clínica do CITEN - Centro Integrado de Terapia Nutricional.

Para saber mais, acesse: www.citen.com.br  


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