Ortognática resolve quando o aparelho, sozinho, não dá jeito

Cirurgia alinha o sorriso, melhora a respiração e a mastigação

POR REDAÇÃO - PUBLICADO EM 24/04/2009

Por mais avanços que a ortodontia apresente, nem sempre o aparelho é suficiente para colocar os dentes na posição correta. Muito mais do que o desconforto estético, aparente na hora de sorrir ou tirar fotos, o problema gera dificuldades que trazem impacto à saúde: mastigar, falar e até respirar dão trabalho quando os dentes estão mal posicionados (a língua não tem onde descansar ou descansa no lugar errado e você força demais um dos lados da articulação maxilar, por exemplo).

"Até o sono destes pacientes é prejudicado", afirma o dentista Rogério Zambonato, especializado em buco-maxilo-facial. "Uma pessoa que dorme mal apresenta mais cansaço e compromete todas as atividades de rotina". Diferente do que muita gente pode pensar, no entanto, a cirurgia não é saída para as situações em que o aparelho não funciona, como uma espécie de plano B. "Um bom profissional avalia o paciente e sabe que o caso dele é cirúrgico desde o começo. Sendo assim, todo o trabalho ortodôntico é voltado a preparar os dentes para a cirurgia, ainda que isso cause uma aparente piora durante o tratamento", diz o dentista.

Nestes casos, em que somente a cirurgia vai rearranjar de forma correta os dentes e a mordida, a melhora estética é garantida. "Mas não vemos isso como nosso objetivo. Arrebitar o nariz, diminuir o queixo ou harmonizar as bochechas, por exemplo, são efeitos secundários. Nossa meta é oferecer mais qualidade de vida ao paciente, que vai ter todas as funções da boca executadas da melhor maneira", afirma o especialista.

Um profissional experiente consegue avaliar a necessidade da cirurgia somente com um exame clínico, no consultório (mesmo que ele não tenha formação para realizar o procedimento). Mas alguns exames ajudam a ter certeza do diagnóstico, como a radiografia e a tomografia, principalmente. "A tomografia tem imagens em três dimensões, o que permite uma avaliação mais fiel da posição dos ossos e dos dentes", afirma o dentista. O exame ainda permite fazer uma simulação do resultado antes mesmo que a cirurgia seja realizada.

Como é feita a cirurgia
O procedimento não dispensa o uso de aparelho (você, inclusive, vai para a mesa com ele nos dentes e só tira dali a, no mínimo, três meses). Dependendo do caso, o especialista traz os ossos da mandíbula (arcada superior) para frente ou leva estes ossos mais para trás. Também é possível mexer no maxilar (arcada inferior), aumentando ou diminuindo de acordo com o problema. Para haver a fixação dos ossos, os especialistas usam pequenas placas de metal (titânio, por exemplo).

Mas não adianta querer se antecipar, achando que vai ficar menos tempo com o sorriso metálico graças à operação. O dentista lembra que a ortognática existe para corrigir alterações de crescimento (exagerado ou insuficiente). Por isso, ela só é vista como alternativa após os 18 anos, em média (salvo casos graves de formação).

A mudança no rosto, apesar de bastante positiva, não chega a ser chocante. Isso porque a ortognática devolve o equilíbrio às linhas da face: você e as pessoas notam a diferença, mas ninguém consegue identificar exatamente onde ela está. "A transformação é no conjunto, e não isolada no nariz ou na boca", afirma o buco-maxilo.

E quem tem medo de dor, pode sossegar: durante a cirurgia você não sente nada, porque a anestesia é geral (todo o procedimento precisa ser realizado num hospital). No pós-operatório também não há dor, segundo o dentista, mas ausência de sensibilidade em toda a região que sofreu intervenção, efeito que leva cerca de seis meses para ser superado. Já nos primeiros quinze dias do pós-operatório, a alimentação tem de ser pastosa e, somente após este período, a fala volta ao normal e a rotina pode ser retomada. "Só há restrição para o consumo de carne, difícil de mastigar, e para a prática de exercícios de impacto: ambos são permitidos apenas dali a três meses. Mas a boca não fica amarrada por 40 dias, como antigamente", diz o especialista.

O incômodo da primeira quinzena lembra aquele causado por uma gripe forte, com nariz congestionado e dificuldade para respirar. E também não há razão para temer cicatrizes: na maioria dos casos, os cortes são feitos por dentro da boca e, quando há necessidade de alguma cisão externa, ela é minúscula e chega a, no máximo, 3 milímetros atrás de uma das orelhas.

A cirurgia apresenta 100% de sucesso, de acordo com o dentista. Por ser uma cirurgia de reparação funcional (e não um capricho vaidoso), todos os planos de saúde são obrigados a realizar a cobertura completa do procedimento (a exceção fica por conta do trabalho do seu dentista, caso ele não trabalhe vinculado a nenhuma operadora de saúde).

Será que é caso de cirurgia?
As primeiras cirurgias ortognáticas realizadas no Brasil datam de 1978. Mas, ainda hoje, muitos dentistas resistem a pensar nela como alternativa de tratamento. "Alguns profissionais fazem uma apresentação meio distorcida da cirurgia, convencendo o paciente e que ela não é necessária", afirma o buco-maxilo Rogério Zambonato. "Os casos cirúrgicos, no entanto, são muito claros. Sem a ortognática, mascaramos o problema, ou seja, há a melhora estética. Mas o paciente continua sofrendo com dificuldades funcionais para mastigar, falar e respirar".

Só um dentista consegue dizer se você precisa ir além do aparelho. Mas o seu corpo dá algumas pistas de que a cirurgia deve ser considerada na dúvida, vale ouvir uma segunda opinião. Pense nisso se você...

1. Precisa fazer força para fechar a boca: isso indica que o encaixe entre a mordida superior e a inferior não está correto. Em adultos, a mordida dificilmente é corrigida apenas com aparelhos ortodônticos. O reposicionamento dos ossos é papel da ortognática.

2. Dorme de boca aberta: sem dúvida, os problemas respiratórios, como asma e rinite, têm a ver com a respiração inadequada. Se você não tem esse tipo de doença, o melhor é falar já com o dentista. E, mesmo que tenha, vale conversar com um especialista (no caso, evidente, de problemas com o sorriso).

3. Não tem o encaixe correto dos dentes: este é o primeiro alerta de que é preciso buscar ajuda de um ortodontista. Mas, desde o início, é importante saber se o tratamento que vai solucionar o seu problema inclui a ortognática. Isso evita, por exemplo, as famigeradas extrações de dentes para criar espaço. "Se os ossos do paciente vão ser reposicionados, é provável que o encaixe aconteça sem que precisemos mexer na dentição".