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Vacina contra hipertensão surge como proposta prática de tratamento

Estudos avançam sobre o anticorpo capaz de inibir o hormônio que eleva a pressão

Publicado em 27/8/2008

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Uma novidade apresentada em agosto, no XVI Congresso Brasileiro de Hipertensão, promete facilitar a rotina dos hipertensos dependentes de medicação diária: a chamada vacina contra hipertensão.

As últimas descobertas apontam para a produção de um anticorpo capaz de atuar sobre a angiotensina II. O presidente e coordenador do congresso, Antonio Felipe Sanjuliani, explica que a angiotensina II é um hormônio produzido pelo organismo. "Em certas condições, ela tem a capacidade de elevar a pressão arterial e induzir à hipertensão. O anticorpo seria capaz, então, de inibir a atuação deste hormônio".

O estudo realizado por cientistas suíços, publicado na revista especializada Lancet em março deste ano, ainda não é conclusivo, já que foi feito com um número muito restrito de pacientes. A previsão para o uso seguro da medida terapêutica também não foi definida, segundo o especialista.

Sobre a possibilidade de a vacina substituir todas as outras formas de tratamento, Antonio Felipe é incisivo: "a vacina atuaria sobre um dos principais mecanismos responsáveis pelo aumento da pressão, mas não em todos. E certamente seu uso não descartaria a necessidade de seguir hábitos saudáveis, nem a possibilidade do uso de outros medicamentos para controlar a pressão".




Ainda de acordo com Sanjuliani, a vacina seria capaz de substituir apenas o grupo de medicamentos que atuam na mesma direção que ela. Ou seja, medicamentos que agem sobre os efeitos da angiotensina II. "Os pacientes que sofrem de pressão alta devido à ação da angiotensina II poderiam se beneficiar, sobretudo, com a praticidade da vacina, tomada a cada quatro meses", fala sobre a proposta do tratamento.



Mesmo nos casos de ação final semelhante, a substituição dos remédios precisaria ser bem estudada. "As drogas atuais voltadas para o tratamento da hipertensão oferecem mais que o controle da pressão arterial. Elas são capazes de produzir efeitos benéficos a vários órgãos e tecidos. Ainda não foi descoberto se essas vantagens são oferecidas pela nova proposta de tratamento", completa Sanjuliani.

Além da comprovação de sua eficácia, os estudos precisam checar a segurança da vacina. O coordenador do congresso explica que a vacina bloqueia o receptor da angiotensina II. Este, por sua vez, desempenha papel fundamental na regulação da pressão e dos líquidos corporais. "Ainda não se sabe o que o bloqueio total deste sistema poderia acarretar diante de situações de desidratação ou trauma", exemplifica.



Sem alarde, a doença mata muitos brasileiros

De acordo com dados do Ministério da Saúde, cerca de 22% da população com mais de 18 anos é hipertensa. O número representa aproximadamente 26,5 milhões de brasileiros. Já os dados da Sociedade Brasileira de Hipertensão mostram que quase 300 mil pessoas morrem anualmente no Brasil por causa de doenças cardiovasculares. Mais da metade deste valor decorre da hipertensão.

"A pressão arterial é a pressão que o sangue exerce na parede das artérias. Em outras palavras, o sangue bombeado pelo coração para irrigar os órgãos exerce uma força contra a parede das artérias. Quando as artérias oferecem resistência à passagem do sangue, exigindo mais força, dizemos que há hipertensão arterial", esclarece Hilton Chaves, cardiologista e secretário executivo da SBH.

O especialista conta que a pressão arterial é medida em milímetros de mercúrio. Valores iguais ou superiores a 140/90 mmHg são considerados altos. Mas Hilton faz uma ressalva: "não se sabe ao certo o que é pressão normal. O que sabemos é que, considerando uma determinada população, os riscos de infarto, morte súbita, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral são maiores quando a média da pressão excede 140/90 mmHg. Adota-se, então, este critério para rotular indivíduos hipertensos".



Hilton afirma que somente uma leitura não é suficiente para considerar uma pessoa hipertensa. "Se a leitura inicial apresentar um valor alto, deve-se medi-la novamente em, pelo menos, mais outros dois dias. Só assim é possível assegurar o diagnóstico de hipertensão arterial", detalha.



Na maioria dos indivíduos, a hipertensão não apresenta sintomas. Hilton relata que alguns pacientes relacionam, de maneira equivocada, a coincidência de sintomas como dores de cabeça, sangramento pelo nariz, tontura, rubor facial e cansaço, à pressão alta. Para descobrir a existência da doença, o conselho do especialista é medi-la com regularidade e visitar o médico freqüentemente.

A experiência foi vivenciada pelo desenhista e projetista Milton Michel, de 47 anos. "Descobri a hipertensão há dois anos, quando passei pelo cardiologista para fazer exames de rotina", conta.

De acordo com o cardiologista Hilton Chaves, a hipertensão é uma doença crônico-degenerativa de causa multifatorial. Mas, a predisposição genética desponta como fator importante. "É comum a hipertensão surgir quando genes adormecidos interagem com fatores como sobrepeso, sedentarismo, abuso de sal e de bebidas alcoólicas, tabagismo e estresse. Tal interação deflagra o gatilho para o indivíduo ser hipertenso", aponta.

É preciso remediar

O tratamento da doença é fundamental para prevenir complicações. Na lista de hábitos que um hipertenso deve ter estão a medição da pressão regularmente e um cardápio balanceado.

Hilton aconselha a evitar doces, leite e derivados na forma integral, carnes vermelhas com gorduras aparentes, temperos prontos, alimentos enlatados, embutidos ou defumados. "O consumo de sal não deve extrapolar uma colher de chá diária. Deixe o saleiro de lado ao sentar à mesa, não adicionando o tempero além da hora do preparo", dá a dica.

Quando o foco vira para os alimentos que devem ser priorizados, o especialista cita frutas, verduras, legumes e produtos lácteos desnatados. Sobre o preparo, o médico incentiva o consumo de alimentos cozidos, assados ou grelhados e recomenda temperos naturais, como limão, ervas, alho, cebola, salsa e cebolinha.

O hipertenso Milton Michel garante que sempre existe lugar para legumes e verduras em seu prato, mesmo com a correria do dia-a-dia. "Em casa, preparo pratos fartos como entrada. Quando almoço em restaurantes por quilo, geralmente, metade do meu prato é formada pelos vegetais", diz.

Praticar atividades físicas regulares (em média, cinco vezes por semana) e abandonar o cigarro são mais atitudes positivas para controlar e prevenir a pressão alta. "O fumo soma mais fatores de risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares", alerta o cardiologista.

Hilton relata que a grande maioria dos hipertensos precisa tomar comprimidos diários para ajudar no controle da hipertensão - caso de Milton Michel, que consome um comprimido toda manhã.

Os medicamentos entram em cena porque nem sempre as modificações do estilo de vida são suficientes para estabilizar a pressão. "O tratamento medicamentoso reduz a mortalidade cardiovascular e previne o agravamento metabólico. Ou seja, além de abaixar a pressão arterial, os medicamentos proporcionam maior sobrevida aos pacientes", fala o especialista da SBH.

Entre os transtornos sofridos por quem não segue o tratamento adequado, o cardiologista lista a angina, sensação de pressão que ocorre quando o coração não recebe oxigênio suficiente, e o infarto, emergência médica em que parte do fluxo sanguíneo ao coração sofre uma súbita redução ou interrupção intensa, produzindo morte do músculo cardíaco. "Além disso, a hipertensão é um dos principais fatores de risco para o acidente vascular cerebral", frisa.

O cardiologista informa ainda que mesmo os pacientes hipertensos que seguem algum tipo de tratamento medicamentoso apresentam mais riscos de desenvolver doenças cardiovasculares, se comparados às pessoas que não sofrem de hipertensão. Os hábitos saudáveis, portanto, são ressaltados também como medida preventiva.

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