Vacinas são seguras e ignorá-las traz mais prejuízos que benefícios

Médico é quem pode avaliar quais pacientes realmente não tiram proveito da prática

ARTIGO DE ESPECIALISTA - ATUALIZADO EM 23/01/2015

Dr. Eduardo Finger
Clínica Médica - CRM 72161/SP
especialista minha vida

Mais que uma estratégia de expor indivíduos a micróbios para prevenir doenças infecciosas, vacinas sintetizam nossa esperança de que seremos enterrados por nossos filhos e não vice-versa. Cabe lembrar, não faz um século em que a segunda situação era pavorosamente comum. Felizmente não é mais e em boa parte devido à vacinação. Mas se isto é verdade, por que vemos relutância em vacinar? Os pais não amam mais suas crianças? Bobagem, as expectativas dos pais não mudam há 10.000 anos. O que talvez ocorra é que a sensação de segurança higiênica que vivemos hoje dá margem a questionamentos que nossos avós, criados em outra realidade, jamais cogitariam. O objetivo deste artigo é abordar algumas destas questões para deixar claro que vacinas são eficazes, seguras, necessárias e não existe razão racional para evitá-las.

Eficácia da vacinação

Objetivamente, é impossível questionar a eficácia do método vacinal. Nenhuma outra intervenção médica salvou mais vidas. Por meio da vacinação, contivemos não apenas infecções como a varíola, a poliomielite e difteria, mas também complicações como o câncer de fígado associado à hepatite B, ou (nossa briga atual), cânceres associados ao papilomavirus (HPV).

Esse instrumento torna-se ainda mais relevante agora, quando a resistência bacteriana avança mais rápido que o surgimento de novas drogas, possivelmente anunciando a decadência da era antibiótica.

Segurança da vacinação

Este, sem dúvida, constitui o ponto mais polêmico da discussão e tanta desinformação foi produzida a respeito, que até pessoas informadas se mostram conflitadas sobre o assunto. Vamos lá então: vacinas são seguras?

Como sempre a melhor resposta é: depende. Dinamite é segura? Nas mãos de um profissional, é. E na sua? Melhor nem falar, não? Com vacinas não é diferente. Por serem intervenções médicas, e nenhuma intervenção médica é 100% segura, elas caem sob a mesma regra: só se justificam se seu benefício superar seu risco. Até aí nada de novo. Mas quem determina a relação risco/benefício? É para isso que você paga fortunas a seu médico. Isto é essencialmente trabalho dele, te conhecer para garantir que em todas as intervenções médicas, as chances estejam sempre maximizadas a seu favor.

Para poder decidir, o médico se baseia em informações suas (idade, outras doenças, grupo de risco, exposição à doença), sobre a doença a prevenir (disseminação, gravidade, potencial letal, seqüelas), e nas particularidades de cada vacina. Essas particularidades (eficácia, riscos, modo e frequência de aplicação, efeitos adversos, duração e etc.), são ampla e minuciosamente mapeadas durante a extensa fase de testes que precede a aprovação de uma vacina. Esses testes são tão rigorosos que, na verdade, a grande maioria das vacinas jamais chega ao público. As que você conhece são aquelas que conseguiram se provar consistentemente eficazes e seguras.

Quais os riscos da vacinação?

Para explicar melhor esse ponto, vamos dividir as vacinas em dois grandes grupos: vacinas de micróbio morto e vacinas de micróbios vivos atenuados.

A primeira, como o nome diz, é constituída pelo micróbio morto ou seus componentes obtidos de fonte natural ou sintética. Como o micróbio está morto, é impossível a vacina induzir a doença original. O que pode acontecer são efeitos colaterais que variam desde um desconforto provocado pela reação à injeção de uma substância estranha, até algo mais importante (mas felizmente, muito raro), como um tipo de paralisia reversível denominado de Guillain-Barret.

A possibilidade de uma reação mais severa, mesmo que rara, é então razão para não vacinar? Novamente, depende, mas na maioria dos casos, a resposta seria não.

Para te manter vivo e saudável, seu sistema imune enfrenta, ininterrupta e diariamente, hordas bárbaras incessantes. E nesse contexto, lidar um componente bacteriano inativado ou um vírus manso sonolento pode ser considerado férias.

Muitas vezes, a reação tem mais a ver com o recipiente que com a vacina e novamente, é isso que o médico estará avaliando quando decide se você é ou não um bom candidato. Um bom exemplo é o cuidado ao vacinar pessoas alérgicas a ovo contra a influenza. Como o vírus vacinal é cultivado em ovos, a vacina pode induzir reação. Sabendo do risco, o médico pode decidir se a pessoa deve ser vacinada, ou no mínimo, cerca o ato vacinal com as devidas precauções para garantir a segurança.

Já as vacinas de micróbios vivos e atenuados, novamente, são exatamente o que seu nome diz, um composto contendo o próprio micróbio causador da doença, vivo, mas modificado de forma a torná-lo incapaz de causar a doença original, produzindo no máximo, uma forma frustra. Sim, houve casos nos quais a vacina causou a doença original, mas estes são extremamente raros, o risco é quantificável, administrável e já está incorporado à decisão de vacinar. Um bom exemplo é a vacina da febre amarela, uma vacina de vírus vivo contra uma doença potencialmente letal. Como há potencial de produzir a doença, ela não é aplicada em massa, mas somente naqueles com chance significativa de adquirir o vírus selvagem, caso no qual a vacina seria o menor dos males.

Mas se a vacina de micróbio vivo pode produzir doença, por que não utilizamos apenas as vacinas de micróbios mortos?

De modo simplificado, por duas razões: a primeira é que às vezes a vacina só funciona se o micróbio estiver vivo, e a segunda é o efeito de manada, que explicarei a seguir.

O efeito de manada resulta do fato de que vacinas de micróbio vivo funcionam como uma infecção e assim sendo, produzem contágio no qual contatos não vacinados também são infectados pelo micróbio domesticado. Deste modo, a cobertura final é muito superior ao número de pessoas vacinadas, negando ao micróbio selvagem indivíduos suscetíveis que sirvam de ponte para sua penetração na comunidade e assim, criando uma barreira que protege pessoas mais vulneráveis que normalmente não podem ser vacinadas, como crianças muito pequenas, idosos ou pessoas com doenças graves e debilitantes.

Devemos continuar a vacinar?

Lembra que eu mencionei a sensação de segurança higiênica no começo do artigo? Pois bem, quantos casos de sarampo você já viu? E de poliomielite? Difteria? Arrisco sem medo de errar dizer que nenhum. Então, já que estas doenças não existem mais em nosso meio, vale a pena continuar a vacinar?

Sim, e para entender, basta examinar países onde, por motivos diversos, a cobertura vacinal cessou: Síria, Nigéria, Paquistão. Não tardou meses para doenças consideradas sob controle voltarem a clamar vítimas.

Veja bem, nossas crianças não nascem imunizadas, portanto, se não mantivermos o efeito manada, não há nada entre elas e os micróbios que causam estas doenças e, mesmo que você não os veja em sua comunidade, num mundo globalizado, a ameaça pode vir de qualquer lugar em menos de 24 horas. A Síria não é em Marte. Se aconteceu lá, só há uma coisa impedindo que aconteça aqui. Adivinhe o que.

Não são muitas vacinas para meu filho?

Se seu filho faz 18 anos e quer tirar carta, o que é melhor: ensiná-lo a dirigir segura e responsavelmente, ou dar-lhe um carro e dizer: "taí, te vira". Não é diferente com os desafios diários que qualquer organismo precisa enfrentar para permanecer vivo, e comparado aos desafios da vida real, vacinas sequer podem ser consideradas um problema.

Para te manter vivo e saudável, seu sistema imune enfrenta, ininterrupta e diariamente, hordas bárbaras incessantes. E nesse contexto, lidar um componente bacteriano inativado ou um vírus manso sonolento pode ser considerado férias. Em pessoas saudáveis, vacinas não são nada comparadas à ferocidade dos germes selvagens e portanto, novamente, são o menor dos males.

Vacinas causam autismo?

A resposta é fácil: em uma palavra, não!

Essencial para o estabelecimento dessa falsa hipótese foi o artigo de Andrew Wakefield na respeitada revista médica The Lancet em 1998, fazendo essa conexão. Desde então, poucas afirmações receberam tamanha atenção e foram analisadas de modo mais cuidadoso e extensivo, de forma que posso afirmar sem reservas, baseado em uma pilha de estudos internacionais conclusivos, que não existe vínculo causal entre vacinação e autismo.

Em relação ao artigo de 1998, em 2010, o próprio Wakefield confessou que este era produto de fraude, o artigo foi retratado e Wakefield perdeu sua licença para praticar a medicina. Do episódio todo, só sobraram confusão, pais amedrontados e os destroços de várias pequenas vidas destruídas desnecessariamente.

O que mais?

Seria possível escrever sobre vacinas semanas a fio sem me repetir, mas este não é o objetivo deste artigo. De tudo o que você leu, se você conseguir lembrar uma única coisa, lembre-se que vacinação não é coisa para amador, é um assunto extremamente sério que não pode ser decidido de modo trivial, e que você não deve levar em conta sugestões de pessoas que não tem conhecimento específico desta área. Se existir alguma razão para evitar alguma vacina, seu médico te dirá. Se ele não souber, ele conhece quem sabe. Além disso, a humanidade agradece sua colaboração na erradicação das pragas que nos vem assolando desde que o mundo é mundo, e na proteção daqueles que não podem se proteger sozinhos.

Para leitura e informações adicionais, recomendo a visita ao excelente site do Center for Disease Control and Prevention (http://www.cdc.gov/vaccines/), ou o mais breve, também excelente e esclarecedor artigo de Jeffrey Gerber e Paul Offit na revista Vaccines de 15 de Fevereiro de 2009, página 456.

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