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Vigorexia e anorexia são motivadas por padrões de beleza excessivos

Cada vez mais magros ou extremamente musculosos, pacientes sofrem distúrbios de imagem

A excessiva valorização da estética pela sociedade moderna tem feito suas vítimas tanto entre os homens quando estre as mulheres. O excesso de vaidade pode levar a obsessões pelo corpo perfeito, causando uma distorção da autoimagem - ou seja, a pessoa se olha no espelho e enxerga gorduras ou imperfeições que na verdade não existem - e desencadeando patologias que à primeira vista são radicalmente opostas, mas quando melhor analisadas revelam ser, realmente, muito parecidas: a anorexia e a vigorexia.

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Mulher muito magra - Foto: Getty Images
Mulher muito magra

A anorexia é bem conhecida e frequenta o noticiário há um bom tempo pelas vítimas que faz principalmente no mundo da moda, entre as jovens garotas que sonham em ter o corpo valorizado por esse meio. Caracteriza-se, basicamente, pela recusa do paciente em alimentar-se, devido a um temor absurdo de ganhar peso. Já a vigorexia é a busca incessante e contínua por músculos. Leva à prática exagerada de exercícios, geralmente associada ao uso de anabolizantes e ao consumo indiscriminado de suplementos alimentares.

Chamadas de transtornos dismórficos corporais (anorexia) e musculares (vigorexia), ambas são patologias mentais: transtornos obsessivos de fundo sociocultural, gerados pela escravização dos padrões de beleza aos quais as pessoas se submetem nas sociedades modernas. Alguns especialistas as consideram, inclusive, que esses transtornos são subprodutos de uma civilização competitiva e consumista, que valoriza o culto à imagem. Ambas impedem que a pessoa leve uma vida normal.

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Qual a diferença entre os transtornos?

Vigorexia - Foto: Getty Images
Obsessão por músculo faz vigoréxico largar suas atividades diárias

A vigorexia, também chamada de anorexia reversa ou síndrome de Adônis (em uma referência ao herói grego famoso por sua beleza), frequentemente faz com que suas vítimas abandonem o trabalho e os relacionamentos para se dedicarem à incessante busca pelo corpo perfeito. Por mais fortes que estejam, as pessoas com vigorexia sempre se consideram fracos, magros e até esqueléticos. Inicialmente, a vigorexia é uma patologia predominantemente masculina, ao contrário da anorexia, que tem como principais vítimas as mulheres - no entanto, ambos os sexos estão sujeitos a um problema ou outro.

Ambos os transtornos tem sua incidência variada de acordo com o a população e meios de vivência comum. "O número de vigoréxicos é alto entre os frequentadores de academias e pode chegar a 20% entre os halterofilistas", alerta a psiquiatra Jocelyne Levy Rosenberg, autora do livro Lindos de Morrer - Dismorfia Corporal e Outros Transtornos Obsessivos: Um Risco para Ela e para Ele (Ed. Celebris Autora). De acordo com a especialista, a pessoa pode ter uma propensão anterior ao problema ou simplesmente desenvolvê-la nesse ambiente.

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É muito comum a resistência dos próprios pacientes em admitir a doença, dificultando o tratamento.

Já a anorexia faz a pessoa emagrecer demais e sempre se achar gorda, mesmo que esteja com os ossos à mostra. Segundo psiquiatra Jocelyne, a anorexia atinge de 0,5% a 2% da população jovem feminina, mas no campo da moda esse número cresce assustadoramente, podendo chegar a 40%. "É mais comum entre adolescentes, mas pode afetar crianças de oito ou nove anos", afirma. "Também pode ser notado um grupo de anoréxicas maduras, já com os filhos criados, que partem em busca da beleza e juventude perdida a partir de uma crise pessoal, geralmente a depressão."

Os riscos à saúde

Por ter causas psicologicamente mais enraizadas e estar frequentemente associada a outras obsessões, a anorexia é considerada mais grave do que a vigorexia, mas ambas trazem grandes prejuízos à capacidade funcional do paciente. No caso da vigorexia, é comum as vítimas perderem o discernimento do que é razoável e abandonarem seus compromissos para passarem horas na academia. "O excesso de exercícios começa a levar a alterações hormonais e a grandes descargas de adrenalina e endorfinas que geram dependência química pela atividade", explica o médico fisiologista Paulo Zogaib, do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte (Cemafe), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). E essa dependência apenas se soma ao distúrbio psicológico e ao quadro de insatisfação permanente.

Anorexia - Foto: Getty Images
Anorexia também pode afetar homens

A sobrecarga de exercício gera uma síndrome orgânica-sistêmica que leva ao aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, a arritmias e a distúrbios alimentares, que, por sua vez, podem desencadear anemia e deficiências vitamínicas. Tudo isso sem falar nas chances de lesões do aparelho locomotor. O quadro piora se há o uso de anabolizantes. A substância sozinha pode levar a uma série de riscos e efeitos colaterais metabólicos: propensão ao câncer, disfunções sexuais, sobrecarga cardiovascular e hepática, piora do perfil de gordura (com aumento do colesterol ruim), retenção de líquidos e aumento da pressão arterial.

Todos esses problemas podem ser potencializados com a prática excessiva de exercícios físicos. "Quando há o overtrainning (excesso de treino), o organismo responde com uma falência de adaptação, que é um mecanismo de defesa que gera perda de força e resistência, além de menor rendimento, alterações no humor e distúrbios alimentares", explica o fisiologista Paulo. O anabolizante, por sua vez, aumenta a capacidade do organismo de se adaptar à sobrecarga. Resultado: dobram-se os riscos, tanto os oferecidos pelo excesso de exercícios quanto aqueles associados aos anabolizantes.

Vigorexia - Foto: Getty Images
Vigorexia é comumente associada com o uso de anabolizantes

Já a anorexia comumente vem associada de ansiedade e depressão, podendo causar fobia social, mudanças no ritmo do sono, fadiga durante o dia, irritabilidade excessiva e instabilidade emocional, atitudes obsessivo-compulsivas por alimentos e exercícios, além de desnutrição e alto nível de exigência consigo mesmo.

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Tratamento difícil

É muito comum a resistência dos próprios pacientes em admitir a doença, tornando essa a principal dificuldade do tratamento. "Os anoréxicos, normalmente, só procuram ajuda médica quando começam a apresentar sinais como fraqueza, desmaios e perda de memória, nunca pela magreza", conta o psicólogo Raphael Cangelli Filho, do Hospital das Clínicas, da USP. "O vigoréxico também dificilmente admite seu problema, acreditando que pode largar a musculação a qualquer momento", acrescenta o fisiologista Paulo. Por isso, os especialistas não falam em cura, mas sim em manter os distúrbios sob controle.

Anorexia - Foto: Getty Images
Pacientes têm visões distorcidas do prórprio corpo

"A maioria dos pacientes fica bem por algum tempo, e depois de um tempo volta a apresentar o distúrbio", explica a psiquiatra Jocelyne, para quem é preciso uma vigilância permanente sobre o paciente, sobretudo nos momentos de transição em sua vida: uma perda, uma mudança radical ou até mesmo o ingresso na faculdade, por exemplo. "Nestas fases, os jovens sentem que perdem o controle sobre suas vidas, e o controle mais básico que eles encontram é sobre o que podem ingerir", explica a especialista.

Nos dois casos, apesar da pressão imposta pelos padrões de beleza ser importante, há também o fator genético, que torna alguns homens mais suscetíveis ao problema. Há pesquisas que apontam uma menor quantidade de neurotransmissores, como a serotonina (responsáveis pela sensação de satisfação e bem-estar), sendo fabricadas pelo cérebro de pessoas com distorções da autoimagem. Por isso, em ambos os casos, o tratamento deve ser feito por uma equipe multidisciplinar, envolvendo psicólogo, psiquiatra, médico clínico (pediatra, hebiatra ou endocrinologista), nutricionista, educador físico, fisioterapeuta e terapeuta ocupacional.

Elas se parecem porque:

Mas são diferentes porque:

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