Entenda melhor a polêmica da cirurgia do Romário

Interposição ileal é um tratamento experimental para pacientes com diabetes

ARTIGO DE ESPECIALISTA - PUBLICADO EM 02/02/2017

Dr. Ricardo Cohen
Cirurgia Geral - CRM 51609/SP
especialista minha vida

Em janeiro de 2017 o ex-jogador de futebol Romário gerou polêmica ao declarar que fez uma cirurgia de interposição ileal para controlar o diabetes e que o levou a perder quase 15 kg. Mas você sabe o que é esta cirurgia? Tire suas dúvidas a seguir:

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O que é uma interposição ileal?

O emagrecimento que ocorre a longo prazo é um 'efeito colateral' das cirurgias metabólicas

A interposição ileal é um tipo de cirurgia metabólica, em que se retira um segmento do final do intestino delgado (chamado íleo) e o recoloca próximo ao início do intestino (o duodeno). Nesta cirurgia também ocorre a geralmente associada à técnica de cirurgia bariátrica em que o estômago é transformado em um tubo mais estreito (a gastrectomia vertical) e à exclusão do contato dos alimentos com o início do intestino.

As cirurgias metabólicas surgiram a partir da observação de pacientes com obesidade grau 3 (ou seja, pessoas com IMC maior do que 40 ou IMC acima de 35 associado a outras doenças) que passaram por cirurgias bariátricas e apresentaram melhora nas taxas glicêmicas sem relação direta com a perda de peso, mas através de mecanismos que atuam diretamente sobre o diabetes tipo 2 (DMT2).

Ilustração de uma gastrectomia vertical - Foto: Getty Images
Gastrectomia vertical transforma o estômago em um tubo mais fino

Uma série de estudos clínicos para avaliou se era viável realizar este tipo de cirurgia em diabéticos obesos grau 1. Os resultados apontaram que pacientes que apresentam condições clínicas de deficiência na função pancreática em produzir insulina, resistência dos tecidos a ação da insulina (quadro conhecido como resistência à insulina) e com dificuldades em manter o tratamento medicamentoso podem se beneficiar do tratamento cirúrgico, criando-se então a definição de cirurgia metabólica.

Pode-se definir que as intervenções sobre o tubo digestivo que tem controle do diabetes tipo 2 quase que imediatamente no pós-operatório, através de diversos mecanismos diretos contra a doença, inicialmente sem relação como a perda de peso, são chamadas de operações metabólicas, em que o emagrecimento que ocorre a longo prazo é um excelente efeito colateral.

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Mas por que a cirurgia de interposição ileal é polêmica?

A cirurgia de interposição ileal é uma variante técnica das cirurgias metabólicas ainda não regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) porque ainda não apresenta estudos a longo prazo que demonstrem segurança e eficácia quando comparada às técnicas regulamentadas e que possuem história de décadas de estudos e utilização tanto para a redução de peso quanto controle do diabetes tipo 2.

Como existem muitas variáveis adaptadas de outros procedimentos bariátricos e metabólicos (como associação à gastrectomia vertical e exclusão duodenal), por enquanto é difícil entender qual o mecanismo de ação da interposição ileal para a perda de peso e controle do diabetes. Comenta-se que esta técnica é utilizada desde 1928, porém ela foi empregada em urologia, longe dos objetivos de uma cirurgia bariátrica ou metabólica.

A grande questão atual da interposição ileal, pela falta de estudos importantes, é a comunidade médica mundial não vislumbrar suas vantagens sobre as operações consagradas. Há apenas um pequeno estudo brasileiro, feito com poucos pacientes e apenas um ano de seguimento pós-operatório apresentado em Congresso (não publicado), insuficiente para qualquer decisão de regulamentação.

Então a interposição ileal não pode ser feita?

Ela pode, mas seguindo protocolos de pesquisa aprovados por Comitês de Ética em Pesquisa e seguir uma série de condições previstas na Resolução 466/2012 que é o aperfeiçoamento de antigas Resoluções do Conselho Nacional de Saúde como a isenção de custos para o participante da pesquisa, que deve ser financiada por agência fomentadora governamental ou obter suporte privado, dentre outros quesitos.

Qualquer novo procedimento médico deve em nosso país seguir a resolução do Conselho Federal de Medicina Nº 1.982/2012 que determina as condições de aprovação de novas terapias e procedimentos e deve seguir criterioso caminho que esclareça a forma da condução das pesquisas em animais e seres humanos no que tange principalmente a segurança e resultados a longo prazo. É inquestionável que a medicina deve avançar, porém com cautela para que o resultado seja o melhor para os pacientes.

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Quais são as opções de cirurgia metabólica para o diabetes aprovadas hoje?

O diabetes tipo 2 é uma doença crônica, progressiva e de tratamento clínico. Quando este tipo de tratamento falha, pode-se associar a cirurgia metabólica ao medicamento. A técnica sugerida na literatura é o bypass gástrico em Y de Roux.

Qual a diferença entre uma cirurgia metabólica e uma bariátrica?

As cirurgias bariátricas são aquelas indicadas para aqueles indivíduos que tem complicações devido ao peso elevado, como doenças articulares, hérnias de disco, refluxo ácido do estomago para o esôfago e etc. As intervenções metabólicas tem como objetivo primário o controle do diabetes e suas complicações e nada tem a ver com o índice de massa corpórea IMC do paciente, mas sim com a gravidade e controle inadequado do diabetes, independente do IMC, seja ela acima ou abaixo de 35 kg/m². Cirurgia metabólica trata primariamente o diabetes e as condições que vem junto, como hipertensão, colesterol e triglicérides elevados.

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