O que é boato e o que é verdade na Operação Carne Fraca

Investigações deixaram dúvidas em relação à procedência da carne consumida. Descubra como isso afeta sua alimentação

POR REDAÇÃO - PUBLICADO EM 21/03/2017

Na última sexta-feira (17) a Polícia Federal deflagrou a "Operação Carne Fraca", que trouxe à tona diferentes irregularidades praticadas por grandes frigoríficos. As descobertas geraram uma onda de insegurança na população. Estou consumindo carne estragada? Posso desenvolver um câncer comendo carne? Papelão virou recheio?

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Como forma de esclarecer o assunto o Minha Vida conversou com o professor Marcos Antônio Trindade, do departamento de Engenharia de Alimentos da USP de Pirassununga e também com o professor Sérgio Pflanzer, professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp.

Para Trindade, algumas questões técnicas foram divulgadas sem critérios, levando às pessoas muitas informações incorretas. "O problema existe e está sendo verificado. No entanto, percebo que existe uma preocupação desnecessária em algumas questões", ressalta

Pflanzer acredita que houve uma generalização sobre alguns problemas pontuais. ?Alguns pontos foram erroneamente interpretados. Ocorreram fraudes específicas em empresas muitos específicas e foram encontradas ilegalidades em algumas poucas empresas? conta. "É importante trazer esclarecimentos para a população a fim de que não seja criado alarde em cima de informações equivocadas", completa.

Confira a seguir a explicação das denúncias levantadas na Operação Carne Fraca.

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Quais foram as denúncias?

De acordo com a Polícia Federal, as carnes, muitas delas em processo de decomposição, recebiam substâncias capazes de disfarçar a cor e aparência dos produtos vencidos.

Além disso, as investigações apontaram que haveria pedaços de papelão misturados à carne de frango, excesso de água para aumentar o peso - e consequentemente o preço. O uso da carne de cabeça de porco para a produção de linguiça e o uso de carne de soja no recheio de salsichas de peru também foi apontado pela Polícia Federal.

Os frigoríficos apontados nas investigações da Polícia Federal são: JBS, dona das marcas Friboi e Seara, BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, Big Frango, Peccin, Dagranja, Frango a Gosto, Frigobeto, Frigomax, Frigorífico 3D, Frigorífico Argus, Frigorifico Larissa, Frigorífico Oregon, Frigorífico Rainha da Paz, Frigorífico Souza Ramos, Novilho Nobre, Primor BeefCentral de Carnes Paraense, Smartmeal, Artacho Casings, Fábrica de Carnes Castro.

A investigação também denunciou um esquema de irregularidades sob forma de propina paga pelos frigoríficos a fiscais do Ministério da Agricultura solicitando que liberassem a comercialização de carnes vencidas e modificadas.

Ácido ascórbico é usado para maquiar carnes estragadas?

Uma das denúncias feitas pela Operação Carne Fraca é a de que os frigoríficos envolvidos no esquema utilizavam ácido ascórbico (vitamina C) para maquiar carnes estragadas e as reembalavam para conseguir vendê-las

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O ácido ascórbico é um antioxidante usado em carnes processadas, como presunto, peito de peru e salsicha. Ele tem a função de evitar que a carne fique com uma coloração marrom. "O uso do ácido ascórbico em carnes processadas é permitido pela Anvisa, pois ele evita a oxidação da gordura que faz com que o alimento fique com gosto e aspecto rançoso", conta o professor Trindade, do departamento de Engenharia de Alimentos da USP de Pirassununga.

"Ele não tem função de maquiar uma carne estragada, pois não tem como disfarçar o cheiro de carne podre", completa Trindade.

A legislação não estabelece um limite para o uso da substância, pois ela deve ser usada em equivalência à quantidade de carne que está sendo tratada.

O Ministro da Agricultura, Blairo Maggi disse em entrevista que ácido ascórbico pode ser utilizado como antioxidante.

Ele pode ser cancerígeno?

Em declaração à imprensa o delegado da Polícia Federal Maurício Moscardi Grillo afirmou que alguns produtos, que poderiam até ser cancerígenos, eram usados para maquiar produtos vencidos.

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Diante da afirmação muitas pessoas passaram a acreditar que o ácido ascórbico poderia ser cancerígeno. De acordo com o professor Pflanzer, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, o uso do ácido ascórbico é seguro dentre os produtos utilizados para tratar carne e não é cancerígeno.

Trindade acrescenta que o uso do ácido ascórbico é permitido somente em carnes embutidas e não deve ser usado em carnes frescas e congeladas. "Se esse tipo de conduta for encontrada em alguma investigação da polícia, a conduta está errada", alerta

O ácido sórbico também era usado para maquiar carne estragada?

Além do ácido ascórbico (vitamina C) veio à tona um outro componente utilizado para maquiar carnes podres: o ácido sórbico. A substância tem função de conservação e atua inibindo o crescimento de microorganismos. ?No entanto, não se consegue maquiar a deterioração e evitar o desenvolvimento microbiano. Aquela condição de cor, muco e cheiro não vai desaparecer?, conta Pflanzer

O ácido sórbico pode ser usado apenas em alguns produtos específicos, como a superfície do salame, para evitar a proliferação de bactérias. No entanto, o ácido sórbico só pode ser usado de acordo com as diretrizes da Instrução Normativa nº 51 de 2006, que afirma que o conservante só pode ser usado 0,02g por 100g de carne. "Além disso, é importante dizer que o ácido sórbico não pode ser usado na massa do salame. Se isso foi feito, está errado", ressalta Trindade.

Foi usado papelão para rechear salsicha?

A hipótese de que pedaços de papelão teriam sido usados para rechear salsicha também veio à tona na Operação Carne Fraca. O motivo é que em uma das gravações obtidas pela polícia, funcionários da empresa BRF citam o uso de papelão na área em que é produzida carne mecanicamente separada.

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Para Pflanzer houve um mal entendido de quem faz a escuta. "Quando se referiram ao uso de papelão, estavam falando sobre o uso do material no ambiente onde a carne é mecanicamente separada, não dentro do produto", esclarece.

No entanto, ele alerta que caixas de papelão não são adequadas para serem usadas dentro da indústria e colocá-las dentro da sala onde a carne é mecanicamente separada não é correto. Mas é bem diferente de conter carne no recheio da salsicha.

Em declaração à imprensa, a BRF alegou que o funcionário falava em embrulhar a carne em papelão. Na sequência, de acordo com a empresa, o funcionário diz que caso não tenha permissão para embalar o produto, precisará condená-lo, ou seja, descartá-lo.

O Ministro da Agricultura Blario Maggi disse em entrevista que o áudio em questão refere-se ao uso de embalagens e não recheio para alimentos.

Houve fraude no recheio da salsicha de peru?

A Polícia Federal apurou que estudantes de uma escola pública do Paraná teriam recebido salsicha de peru sem recheio de peru e sim com proteína de soja, fécula de batata e carne de frango.

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"Essa prática é ilegal, pois os produtos têm um padrão de identidade estabelecidos pelo Ministério da Agricultura que deve ser seguido. As carnes têm um teor mínimo de proteínas, carboidratos, água e gorduras que precisa ser respeitado. Se um produto se diz de peru e ele tem menos proteína está fora do padrão. Estão vendendo gato por lebre e isso é crime". alerta.

No entanto, Trindade explica que a prática não é prejudicial à saúde, mas ainda sim é um crime.

Até o fechamento desta matéria não houve manifestação do governo sobre esse assunto.

Foi usado cabeça de porco para rechear linguiças?

Em uma gravação divulgada pela Polícia Federal entre os donos do frigorífico Peccin, no Paraná, é possível ouvir o interesse de um deles de usar carne de cabeça de suíno na composição da linguiça calabresa.

Essa informação foi divulgada como proibida, mas não é. "Muita gente associa a carne de cabeça suína à sujeira mas não é assim. A carne de cabeça suína pode ser utilizada desde que seja moída e cozida, não pode ser comercializada fresca", afirma Trindade

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O motivo é que a carne de cabeça suína é mais manipulada e por isso está mais suscetível à contaminação por microorganismo, por isso só deve ser usada em produtos cozidos. "Esse tipo de carne também segue os padrões determinados pela legislação, se foi usada em produtos que não podia, houve desvio de conduta", enaltece.

O Ministro da Agricultura Blairo Maggi disse em declaração à imprensa que o uso de carne de cabeça suína é permitido e consta nas normas do ministério.

Houve adição de água no frango para deixá-lo mais pesado?

As investigações da polícia federal teriam detectado "índices elevados de absorção de água em frangos". Segundo a legislação brasileira é permitido que se tenha até 8% de água no frango. O ideal é que a indústria trabalhe abaixo desse valor. Os especialistas afirmam que encontrar mais do que 8% de água no frango é fraude. Não coloca em risco a saúde, mas não é correto.

Devemos parar de comer carne?

Diante dos recentes acontecimentos fica dúvida em relação à procedência da carne que se leva para a casa. Não há nenhuma recomendação oficial que suspenda o consumo da carne. Os especialistas reforçam que não há motivo para pânico.

"O sistema é robusto, a carne comercializada no Brasil é de alta qualidade. Por isso somos os maiores exportadores mundiais de carne. Infelizmente existem problemas, mas eles estão em todas as esferas da sociedade", diz Trindade.

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Em entrevista, o ministro Blairo Maggi salientou que, de 11 mil funcionários, apenas 33 estão sendo investigados e que, das 4.837 unidades sujeitas à inspeção federal, apenas 21 supostamente envolvidas em eventuais irregularidades.

Haverá um recall dar carnes?

Em entrevista, o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki informou que os códigos de barra dos produtos dos três frigoríficos em que as fraudes foram confirmadas, duas unidades do frigorífico Peccin, em Jaraguá do Sul (SC) e em Curitiba (PR), e uma da BRF, em Goiás começaram a ser rastreados na última segunda-feira (20). No entanto, ainda não se sabe se haverá um recall dos produtos.

O outro lado

Em nota enviada à imprensa, a JBS afirmou que "atua em absoluto cumprimento de todas as normas regulatórias em relação à produção e a comercialização de alimentos no país e no exterior e apoia as ações que visam punir o descumprimento de tais normas".

"A Companhia repudia veemente qualquer adoção de práticas relacionadas à adulteração de produtos - seja na produção e/ou comercialização - e se mantém à disposição das autoridades com o melhor interesse em contribuir com o esclarecimento dos fatos", disse a JBS.

A BRF comunicou que "é a favor da fiscalização do setor e o direito de informação da sociedade com base em fatos e sem generalizações".

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O Grupo Argus, detentor da marca Argus disse, em declaração, que "...obedece rigorosamente às observações sanitárias e de qualidade determinadas pelo SIF - Sistema de Inspeção Federal, do Ministério da Agricultura, da SEAB - Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado do Paraná e Vigilância Sanitária, além dos demais órgão reguladores que tem como premissa fiscalizar e garantir a qualidade plena dos produtos oferecidos ao mercado consumidor"

A Peccin Agro Industrial publicou uma nota em seu site que afirma "que tem amplo interesse em contribuir com as investigações, em busca da verdade, estando inteiramente à disposição das autoridades policiais para prestar esclarecimentos necessários". Além disso, a empresa disse que "lamenta a divulgação precipitada de inverdades sobre o seu sistema de produção, sendo que as informações repassadas ao grande público foram no afã de justificar os motivos da operação Carne Fraca, modificando os fatos e comprometendo a verdade".

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