Alergia medicamentosa: sintomas, tratamentos e causas

REVISADO POR
Dra. Rosane Bleivas Bergwerk
Alergia e Imunologia - CRM 69705/SP
especialista minha vida

Visão Geral

O que é Alergia medicamentosa?

Sinônimos: hipersensibilidade à droga, hipersensibilidade medicamentosa, reação alérgica a medicamento

Reação adversa a medicamento segundo a ANVISA é qualquer efeito nocivo, não intencional e indesejado de uma droga, observado nas doses terapêuticas habituais em seres humanos para fins terapêuticos, profiláticos ou diagnósticos. As reações adversas a medicamentos classificam-se em previsíveis e imprevisíveis.

Previsíveis

São comuns, podem ocorrer em qualquer indivíduo e são relacionadas à ação farmacológica da droga, são dose-dependentes. Representam 75% das reações adversas a medicamentos. Elas são divididas em quatro tipos:

  • Toxicidade
  • Efeito secundário ou indireto
  • Efeito colateral
  • Interação de drogas

Imprevisíveis

São incomuns, ocorrem em pacientes suscetíveis, não são relacionadas a ação farmacológica da droga, depende da resposta individual de cada um, de deficiências genéticas ou resposta imunológica, são dose-independentes. Representam 25% das reações adversas a medicamentos. Elas são dividas em três tipos:

  • Intolerância medicamentosa
  • Reação idiossincrática
  • Reação de hipersensibilidade ou alergia (15% das reações alérgicas a medicamentos)

Reações de hipersensibilidade

As reações de hipersensibilidade ou alergia a medicamentos, segundo a WAO – World Allergy Organization podem ser alérgicas ou não alérgicas, conforme apresentem ou não mecanismo imunológico como desencadeante. As reações a medicamentos na sua maioria não são provocadas por mecanismos imunológicos, consideradas portanto como reações de hipersensibilidade não alérgica. (envolve anticorpo especifico ou linfócito T sensibilizado, ocorre a liberação de mediadores diretamente de mastócitos ou basófilos ou ativação do sistema complemento. As manifestações clinicas são semelhantes a de uma reação alérgica.)

A reação adversa a medicamentos é adquirida. É possível nunca ter sido alérgico a um medicamento e de repente se tornar. Pacientes atópicos (com asma, rinite e/ou dermatite atópica) podem apresentar reações IgE mediadas mais graves. A via de administração parenteral, ou seja, por soro, provoca reações mais intensas. A incidência de reação alérgica ao medicamento é maior quando administrado de forma intermitente. O uso contínuo está associado a menor incidência de sensibilização alérgica.

Às vezes as drogas apresentam estruturas químicas semelhantes e por este motivo dizemos que apresentam reação cruzada, ou seja, podem provocar os mesmos efeitos. Isso explica porque pode ser necessária a suspensão de um grupo de medicamentos. Os fármacos que mais provocam reações adversas são os antibióticos e os anti-inflamatórios não esteroidais.

Tipos

Existem quatro tipos de reação causada por alergias medicamentosas:

  • Reação imediata tipo I: tem a participação do anticorpo IgE, resultando num quadro clínico com rinite, asma, urticária, angioedema (edema da derme profunda atingindo pálpebras e lábios) e anafilaxia (em que o paciente pode apresentar coceira na pele, vermelhidão, sensação de desmaio, falta de ar, chiado no peito, queda de pressão, choque, náuseas, vômitos e diarreia, urticária e angioedema. A obstrução progressiva das vias aéreas e colapso circulatório podem levar a coma e óbito)
  • Reação tipo II: ação direta do anticorpo IgM ou IgG no tecido ou orgão, com ativação do sistema complemento. Pode atingir pele, pulmão, fígado, músculos, nervos periféricos e células sanguíneas. Pode provocar anemia hemolítica, diminuição de plaquetas e nefrite intersticial
  • Reação tipo III: Envolve a formação de um complexo antígeno-anticorpo que provoca lesão do tecido com ativação do sistema complemento. O quadro clínico envolve febre, urticária, presença de gânglios, inflamação das articulações, vasculite e envolvimento renal
  • Reação tipo IV: que é mediada por linfócitos T sensibilizados com produção de linfocinas, como a dermatite de contato.

Causas

A alergia medicamentosa ocorre quando há envolvimento do sistema imunológico, que interpreta o medicamento como uma substância que causará algum dano ao corpo e o ataca. Na primeira vez que isso ocorre, um anticorpo específico é acionado, a partir da segunda exposição haverá uma manifestação clínica.

Fatores de risco

  • Atopia (asma, rinite alérgica ou dermatite atópica), havendo um aumento do risco de reações mais graves
  • Reação alérgica a outros medicamentos: se um paciente é alérgico a um medicamento, por exemplo anti-inflamatório, pode ter o risco de ter alergia em relação a outro grupo de estrutura química semelhante.

Sintomas

Sintomas de Alergia medicamentosa

Os sintomas de alergia medicamentosa podem ser divididos de acordo com as regiões que afetam:

Manifestações na pele

  • Urticária
  • Erupções na pele (máculo-papulares ou vésico-bolhosas)
  • Fotosenssibilidade
  • Eritema fixo
  • Vasculite
  • Dermatite de contato
  • Dermatite esfoliativa
  • Necrólise epidérmica tóxica (NET)
  • Pustulose exantemática aguda generalizada (PEGA)
  • Angioedema.

Manifestações renais

Manifestações pulmonares

  • Infiltrados eosinofílicos
  • Vasculite
  • Fibrose intersticial
  • Asma e rinite

Manifestações no fígado

  • Colestase
  • Lesão hepato-celular

Manifestações no sangue

  • Anemia hemolítica
  • Trombocitopenia
  • Agranulocitose
  • Eosinofilia

Manifestações sistêmicas

  • Anafilaxia
  • Doença do soro
  • Febre
  • Síndrome Lupus-like
  • Poliarterite
  • Síndrome de hipersensibilidade

A anafilaxia é uma situação grave, que pode resultar em coma e óbito, com sintomas de pele (urticária, angioedema, vermelhidão no corpo, coceira nas mãos e no corpo, palidez, sudorese, arrocheamento dos lábios e extremidades), do sistema respiratório (tosse, sibilos, falta de ar, rouquidão, aperto na garganta, espirros, coriza e entupimento nasal, lacrimejamento), sistema cardiovascular (arritmia, taquicardia, tontura, fraqueza, queda de pressão e dor no peito), sistema gastro-intestinal (dor abdominal, náusea, vomito e diarreia). O paciente pode apresentar perda de consciência, convulsões, podendo chegar a um estado de coma e se não for socorrido rapidamente pode chegar ao óbito.

As reações alérgicas podem ser imediatas (30 minutos até 2 horas após a administração da droga), aceleradas (2 a 48 horas após a administração da droga) e tardias (48 horas após a administração da droga).

Diagnóstico e Exames

Buscando ajuda médica

Caso você tome um medicamento e apresente sinais de alergia, procure uma ajuda médica o mais rápido possível.

Situações de emergência

Se ocorrer uma reação anafilática, esta é uma situação de emergência, que pode se desenvolver muito rapidamente. Por isso, é importante buscar ajuda médica imediata assim que a pessoa apresentar sintomas, principalmente na fase inicial.

Se você está com alguém que está sofrendo uma anafilaxia, o primeiro passo é ligar para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) no número 192.

Enquanto a ajuda não chega, coloque a pessoa em uma posição confortável, eleve suas pernas. A medicação indicada é a injeção de epinefrina (adrenalina auto-injetável intra-muscular na face lateral da coxa), que não está disponível no Brasil e deve ser importada. Não se esqueça de relatar ao médico da emergência que medidas você tomou quando ele chegar ao local.

Na consulta médica

O profissional indicado para diagnosticar e orientar o paciente com alergia a medicamentos é o alergologista.

Estar preparado para a consulta pode facilitar o diagnóstico e otimizar o tempo. Dessa forma, você já pode chegar à consulta com algumas informações:

  • Uma lista com todos os sintomas e há quanto tempo eles apareceram
  • Histórico médico, incluindo outras condições que o paciente tenha e medicamentos ou suplementos que ele tome com regularidade
  • Se possível, peça para uma pessoa te acompanhar.

O médico provavelmente fará uma série de perguntas, tais como:

  • Quais são seus sintomas?
  • Quando os sintomas começaram? Após quanto tempo da ingestão do medicamento?
  • Quanto tempo os sintomas duraram?
  • Que novo medicamento você tomou? Quando você o tomou?
  • Você parou de tomar essa nova droga?
  • Que medicamentos sem prescrição médica você toma?
  • Que fitoterápicos, vitaminas e suplementos você toma?
  • Em que momento do dia você toma esses medicamentos?
  • Você aumentou a quantidade de algum desses medicamentos recentemente?
  • Você tomou algo para melhorar seus sintomas? Que efeito teve?
  • Você tem histórico de alergia medicamentosa? A quais medicamentos?
  • Você tem rinite, asma, alergia alimentar ou outro tipo de alergia?
  • Há histórico de alergias a remédios em sua família?

Tirar algumas fotos de sua reação alérgica também pode ajudar seu médico, caso os efeitos já tenham passado até o momento da consulta.

Também é importante levar suas dúvidas para a consulta por escrito, começando pela mais importante.

Diagnóstico de Alergia medicamentosa

Os testes para detecção de alergia a medicamentos não mostram eficácia e especificidade para todos os fármacos. A maioria das reações a drogas não é dependente de mecanismo IgE mediada, portanto não respondem a um teste alérgico Muitas reações imunológicas são provocadas por metabólitos e não pela droga principal. Estes metabólitos são de difícil identificação.

Os testes mais utilizados são:

  • Dosagem sérica de IgE específica
  • Teste cutâneo de hipersensibilidade imediata
  • Teste cutâneo intra-dérmico
  • Teste de provocação
  • Teste alérgico de contato
  • Detecção de anticorpos IgE, IgM, IgG específicos
  • Teste de ativação de basófilos
  • Teste de proliferação linfocitária.

Muitos destes testes não são realizados em consultório, porque necessitam de monitorização em ambiente hospitalar. O que melhor caracteriza o diagnóstico é a minuciosa história clínica. Os testes ficam reservados para o paciente que não tem como substituir o medicamento.

Tratamento e Cuidados

Tratamento de Alergia medicamentosa

A medida mais importante é o afastamento do medicamento suspeito. Como muitas vezes há reação cruzada com outras drogas, portanto é necessário evitar o grupo todo. O médico especialista deve orientar a substituição por um fármaco semelhante.

Alguns medicamentos podem ser usados para aliviar os sintomas persistentes da alergia. Entre eles:

  • Antihistamínicos
  • corticosteroides
  • broncodilatadores.

Há um tratamento realizado em Hospital Escola chamado de dessensibilização, que consiste em, por meio de protocolos bem definidos, induzir a tolerância do medicamento.

Nos casos de anafilaxia além do socorro imediato com adrenalina auto-injetável, o paciente pode precisar de oxigênio e medicação intravenosa, necessitando de um suporte de emergência e internação.

Convivendo (prognóstico)

Convivendo/ Prognóstico

O maior cuidado ao se ter uma alergia medicamentosa é evitar o remédio que causa essa reação.

Prevenção

Prevenção

Quando se tem uma alergia medicamentosa, a melhor forma de prevenção é evitar o medicamento.

Algumas atitudes que ajudam isso são:

  • Informe todos os profissionais de saúde. Em consultas médicas, sempre avise os especialista a qual princípio ativo você é alérgico, para que ele possa receitar medicamentos sem relação com eles
  • Use um bracelete ou documento avisando sobre sua alergia, isso irá ajudar os profissionais de saúde que o atenderem em uma emergência
  • Caso você tenha propensão a ter reações anafiláticas, seu médico provavelmente receitará epinefrina de emergência, que normalmente é auto-aplicável. Ande sempre com ela e, quando começar a sentir os sintomas, aplique-a.

Fontes e referências

  • Revisado por Rosane Bleivas Bergwerk, alergologista, especializada em Pediatria e Pneumologia Infantil e graduada pela UNIFESP em Alergia e Imunologia Adulto e Infantil (CRM-SP 69.705)
  • Diretrizes de Diagnóstico da Anafilaxia – Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia e Sociedade Brasileira de Anestesiologia (2011)
  • Diretrizes de Tratamento da Anafilaxia – Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia e Sociedade Brasileira de Anestesiologia (2011)
  • Clínica Mayo