Cefaleia em salvas

Visão Geral

O que é Cefaleia em salvas?

O termo "cefaleia em salvas" refere-se a dor de cabeça que se repete ao longo de um período de tempo. As pessoas com cefaleia em salvas sofrem com a dor de uma a três vezes por dia durante um período de tempo (o período de salvas), que pode durar de duas semanas a três meses.

Os ataques parecem estar ligados ao ritmo circadiano, que é nosso “relógio biológico”. Dessa forma, pessoas que sofrem com cefaleia em salvas podem ter episódios da doença sempre na mesma época do ano ou então em apenas um horário do dia. A cefaleia em salvas normalmente desperta uma pessoa de sono uma a duas horas depois de ir para a cama. Os ataques noturnos podem ser mais graves do que os ataques diurnos.

A cefaleia em salvas pode desaparecer completamente (entrar em "remissão") por meses ou anos. A cefaleia em salvas é considerada rara quando comparada aos outros tipos de dor primária. É mais comum em homens, numa razão em torno de 3:1 e pode iniciar-se em qualquer idade, sendo mais comum o início na segunda ou terceira décadas de vida.

Causas

A causa exata da cefaleia em salvas é desconhecida, sendo que a teoria mais aceita são anormalidades no hipotálamo. O fato da ocorrência de cefaleia estar relacionada com o relógio biológico reforça essa ideia, uma vez que a regulação do ciclo circadiano fica no hipotálamo. Essa estrutura cerebral é responsável por alguns mecanismos muito importantes para a regulação do corpo humano, incluindo controle temperatura, da regulação hormonal e do sono.

Diferente da cefaleia tensional, a cefaleia em salvas não acontece quando o paciente é exposto a gatilhos, como alimentos, mudanças hormonais ou estresse. Algumas pessoas podem experimentar, no entanto, náusea ou episódios de aura parecidos com os sintomas da enxaqueca.

Entretanto, uma vez que o período de salvas começa, o consumo de álcool pode facilmente piorar os sintomas. Por essa razão, pessoas com cefaleia em salvas evitam ingerir bebidas alcoólicas durante as crises.

Outros possíveis gatilhos incluem o uso de medicamentos como a nitroglicerina, comumente usada para tratar doenças cardíacas.

Tipos

Existem dois tipos de cefaleia em salvas: episódica e crônica.

  • Cefaleia em salvas episódica: ocorre regularmente entre uma semana e um ano, seguido por um período sem dor de um mês ou mais
  • Cefaleias em salvas crônica: ocorre regularmente durante mais de um ano, seguido por um período sem dor de cabeça que duram menos de um mês.

Uma pessoa que tem cefaleia em salvas episódica podem desenvolver dores crônicas e vice-versa.

Fatores de risco

Fatores de risco para cefaleia em salvas incluem:

  • Sexo: pessoas do sexo masculino são mais propensas a ter esse tipo de cefaleia do que pessoas do sexo feminino
  • Idade: a doença é mais comum entre os 20 e os 50 anos, embora a condição possa se desenvolver em qualquer idade
  • Tabagismo: muitas pessoas com cefaleia em salvas são fumantes
  • Ingestão de álcool: bebidas alcoólicas podem desencadear ou piorar um ataque em pessoas que já estão em risco para cefaleia em salvas
  • Histórico familiar: se o pai, a mãe ou um irmão já teve cefaleia de salvas, você tem um risco aumentando para desenvolver o problema.

Sintomas

Sintomas de Cefaleia em salvas

A cefaleia em salvas é caracterizada por uma dor intensa, unilateral, geralmente em torno da órbita, durando de 15 a 180 minutos se não tratada. Pode ser acompanhada de

  • Vermelhidão no olho
  • Lacrimejamento
  • Congestão nasal
  • Queda da pálpebra do mesmo lado da dor.

O paciente refere sensação de inquietude ou agitação durante a crise. As crises têm uma frequência de uma a cada dois dias a oito por dia. É caracterizada pela regularidade e por ser frequentemente noturna, acordando o paciente no meio da noite.

A cefaleia em salvas costuma atingir seu pico dentro de cinco ou dez minutos após o início. Os ataques geralmente são muito semelhantes, variando apenas ligeiramente de um ataque a outro. Conheça as características comuns da cefaleia em salvas:

  • Tipo de dor: a dor da cefaleia em salvas ocorre quase sempre de um lado e permanece no mesmo lado até o fim da crise. Quando um novo período de dor é iniciado, raramente ocorre no lado oposto
  • Intensidade da dor: a dor é geralmente muito intensa e grave, sendo descrita como uma queimação ou sensação de perfuração. Pode ser latejante ou constante. A dor é tão intensa que a maioria das pessoas que sofrem de cefaleia em salvas não conseguem ficar paradas, precisando caminhar durante o ataque
  • Localização da dor: a dor se localiza atrás de um olho ou na região do olho, sem alterar os lados. Ela pode irradiar para a testa, têmpora, nariz, bochecha ou gengiva superior. O couro cabeludo pode ficar tenso e a pessoa apresentação pulso latejante
  • Duração da dor: o episódio de cefaleia em salvas dura um curto período de tempo, geralmente de 30 a 90 minutos. Pode, no entanto, durar desde 15 minutos até três horas. A dor de cabeça desaparecerá para reaparecer mais tarde naquele dia. Normalmente, entre os ataques, as pessoas com cefaleia em salvas não sentem dor
  • Frequência de dores de cabeça: a maioria dos doentes sofre de um a três episódios por dia durante um período de salvas. Ocorrem muito regularmente, no geral na mesma hora a cada dia. Cerca de 80-90% das pessoas com cefaleia em salvas episódica apresentam crises que duram de sete dias a um ano, separados por episódios sem dor com duração de 14 dias ou mais. Em cerca de 20% das pessoas, os ataques podem ser crônicos, ou seja, com menos de 14 dias sem dor de cabeça por ano.

Diagnóstico e Exames

Diagnóstico de Cefaleia em salvas

O diagnóstico da cefaleia em salvas é feito com base na descrição dos sintomas. Se há alguma mudança no padrão dos sintomas ou o(a) médico(a) desconfiar de outras causas, pode ser pedida uma ressonância magnética ou tomografia computadorizada.

Na consulta médica

Especialistas que podem diagnosticar cefaleia em salvas são:

  • Clínico geral
  • Neurologista
  • Oftalmologista

Estar preparado para a consulta pode facilitar o diagnóstico e otimizar o tempo. Dessa forma, você já pode chegar à consulta com algumas informações:

  • Uma lista com todos os sintomas e há quanto tempo eles apareceram. Cada vez que você tiver uma crise, anote detalhes que podem ajudar a diagnosticar seu tipo específico de dor de cabeça, tais como a duração da dor, intensidade, possíveis gatilhos e sintomas além da dor
  • Histórico médico, incluindo outras condições que o paciente tenha e medicamentos ou suplementos que ele tome com regularidade
  • Se possível, peça para uma pessoa te acompanhar.

O médico provavelmente fará uma série de perguntas, tais como:

  • Quando os sintomas começaram?
  • Os sintomas são contínuos ou ocasionais?
  • Os sintomas ocorrem na mesma hora do dia sempre? Ou então na mesma época do ano?
  • A ingestão de álcool parece piorar os sintomas?
  • Quão intensos são os sintomas?
  • O que, se alguma coisa, parece melhorar os sintomas?
  • O que, se alguma coisa, parece piorar os sintomas?

Também é importante levar suas dúvidas para a consulta por escrito, começando pela mais importante. Isso garante que você conseguirá respostas para todas as perguntas relevantes antes da consulta acabar. Para cefaleia em salvas, algumas perguntas básicas incluem:

  • Qual a causa mais provável dos sintomas?
  • Quais exames são necessários? O que eles irão indicar?
  • Essa condição é temporária ou crônica?
  • Quais os tratamentos disponíveis? Qual você recomenda?
  • Existem alternativas para esse tratamento que você está sugerindo?
  • Eu tenho outras condições de saúde. Como isso interfere no tratamento?
  • Preciso fazer alguma restrição?
  • Há uma alternativa genérica para o medicamento que você está receitando?
  • Quais os efeitos colaterais comuns desse medicamento?
  • Você tem algum material impresso que posso levar comigo? Quais sites você recomenda?

Não hesite em fazer outras perguntas, caso elas ocorram no momento da consulta.

Buscando ajuda médica

Marque uma consulta médica se você começar a sentir dores de cabeça em salvas para descartar outras doenças e para encontrar o tratamento mais eficaz.

Dor de cabeça, mesmo quando grave, não é geralmente o resultado de uma doença subjacente. Mas, ocasionalmente, pode indicar uma condição médica grave subjacente, tal como um tumor cerebral ou aneurisma.

Procure atendimento de emergência se tiver algum destes sinais e sintomas:

  • Dor de cabeça súbita e intensa
  • Dor de cabeça com febre, náuseas ou vômitos, rigidez do pescoço, confusão mental, convulsão, dormência ou dificuldades na fala
  • Dor de cabeça depois de um ferimento, mesmo que seja uma pequena queda ou colisão, especialmente se piorar
  • Uma dor de cabeça súbita, intensa e diferente de qualquer outra que você já experimentou
  • Dor de cabeça que piora progressivamente ao longo de dias.

Tratamento e Cuidados

Tratamento de Cefaleia em salvas

Não há cura para cefaleia em salvas. O objetivo do tratamento consiste em reduzir a gravidade da dor, encurtar o período de dor e evitar os ataques.

Tratamentos de ação rápida

Como a dor de cabeça vem de repente e pode desaparecer dentro de um curto espaço de tempo, a cefaleia em salvas pode ser difícil de avaliar e tratar, uma vez que requer medicamentos de ação rápida.

Alguns medicamentos e terapias podem aliviar a dor da cefaleia em salvas rapidamente. Esses tratamentos incluem:

  • Oxigênio: inalar oxigênio através de uma máscara pode ser muito eficaz no tratamento da cefaleia em salvas. A principal desvantagem é a necessidade de transportar um cilindro de oxigênio e um regulador com você, o que pode tornar o tratamento inconveniente e inacessível. Pequenas unidades portáteis estão disponíveis, mas ainda sim essa técnica pode ser impraticável para algumas pessoas
  • Triptanos, como sumatriptano (injetável ou intranasal) e zolmitriptana (spray nasal ou comprimido) são usados para o alívio da cefaleia em salvas. Mas cuidado: o sumatriptano não é recomendado para pacientes com pressão alta não controlada ou doença cardíaca
  • Octreotida, versão sintética do hormônio somatostatina ministrado por injeção
  • Anestésicos, como lidocaína, ministrado por via nasal
  • Dihidroergotamina, por via nasal ou intravenosa no hospital.

Tratamentos preventivos

Terapia preventiva começa no início do episódio de salvas com o objetivo de evitar os próximos ataques. O tratamento muitas vezes depende da duração e regularidade dos episódios.

Com orientação médica, os remédios podem ser gradualmente reduzidos uma vez que o comprimento esperado do episódio termina. Veja os tratamentos comuns:

  • Bloqueadores dos canais de cálcio, ministrado via oral e muitas vezes usado em conjunto com outros medicamentos. Os efeitos colaterais podem incluir obstipação, náuseas, fadiga, inchaço dos tornozelos e pressão arterial baixa
  • Corticosteroides, como a prednisona, são medicamentos preventivos que podem ser eficazes para cefaleia em salvas episódica com períodos leves. Efeitos secundários do uso prolongado incluem diabetes, hipertensão e catarata
  • Carbonato de lítio, que é usado para tratar o transtorno bipolar, pode ser eficaz na prevenção da cefaleia em salvas crônica se outros medicamentos não tiveram sucesso. Os efeitos colaterais incluem tremor, aumento da sede e diarreia
  • Bloqueio do nervo occipital, cuja injeção possui um agente de entorpecente (anestésico) e corticosteroides para a área ao redor do nervo occipital, localizado na parte de trás de sua cabeça. É usado para o alívio temporário até que outras medicações preventivas estejam fazendo efeito
  • Ergotamina, disponível em comprimidos, pode ser tomado antes de dormir para evitar ataques noturnos
  • Dihidroergotamina na forma injetável também é indicada para o tratamento prolongado
  • Melatonina pode reduzir os episódios noturnos de cefaleia em salvas, segundo estudos. Na dúvida, converse com o médico ou médica
  • Outros medicamentos preventivos usados para cefaleia incluem medicamentos anticonvulsivos e topiramato.

Cirurgia

Raramente, a equipe médica pode recomendar a cirurgia para as pessoas com cefaleia em salvas crônica que não encontram alívio com o tratamento agressivo ou que não toleram os medicamentos e seus efeitos colaterais.

Procedimentos cirúrgicos para cefaleia são feitos a fim de danificar as vias nervosas responsáveis pela dor, mais comumente o nervo trigêmeo, localizado na área atrás e em torno do olho.

No entanto, os benefícios de longo prazo da cirurgia não são conclusivos. Além disso, por causa das possíveis complicações - incluindo fraqueza muscular na mandíbula ou perda sensorial em determinadas áreas do rosto e cabeça - é raramente considerada.

Estimulação do nervo occipital

Pesquisadores estão estudando um potencial tratamento chamado estimulação do nervo occipital. Neste procedimento, o cirurgião implanta eletrodos na parte de trás da cabeça do paciente e os conecta a um dispositivo de marcapasso do tipo pequeno. Os eletrodos enviam impulsos para estimular a área do nervo occipital, que pode bloquear ou aliviar os sinais de dor.

Existem estudos semelhantes em andamento com estimulação cerebral profunda. Neste procedimento, é implantado um eletrodo no hipotálamo, a área do cérebro associada com nosso relógio biológico e que possivelmente tem ligação com a cefaleia em salvas. O cirurgião conecta o eletrodo a um dispositivo que envia impulsos elétricos ao cérebro e pode ajudar a aliviar sua dor.

A estimulação cerebral profunda do hipotálamo pode proporcionar alívio para as pessoas com cefaleia em salvas graves e crônicas, que não obtiveram sucesso com outros medicamentos.

Convivendo (prognóstico)

Convivendo/ Prognóstico

Embora a dor da cefaleia em salvas comece repentinamente, alguns sinais podem indicar quando ela se aproxima, possibilitando a você adiantar o tratamento. Veja:

  • Sensação de desconforto ou sensação de queimação unilateral leve
  • Um dos olhos pode ficar inchado ou com a pálpebra caída. A pupila do olho pode ficar menor e a conjuntiva (tecido rosa que alinha o interior da pálpebra) pode avermelhar
  • Corrimento nasal ou lágrimas no olho durante um ataque, que ocorrem no mesmo lado que a dor
  • Transpiração excessiva
  • Rubor da face do lado afetado
  • Sensibilidade à luz.

Além disso, outras medidas podem ser tomadas para reduzir a dor da cefaleia em salvas, como ingestão de álcool ou mudanças nos hábitos de sono. Dessa forma, evitar bebidas alcoólicas e manter uma rotina de sono durante as crises pode ajudar.

Expectativas

Cefaleia em salvas não é uma doença fatal, mas não há cura. As dores de cabeça podem ficar mais ou menos frequentes e mais ou menos dolorosas ao longo do tempo, ou podem desaparecer completamente. É importante buscar o tratamento adequado e evitar hábitos que aumentem a dor.

Prevenção

Prevenção

Não é possível prevenir o primeiro ataque de cefaleia em salvas. No entanto, você pode encontrar possíveis gatilhos ou hábitos que piorem a dor, e então evitá-los durante as crises. Alguns pacientes sofre a piora do quadro se forem expostos a alguns desses fatores:

  • Álcool
  • Tabaco
  • Cocaína
  • Altas altitudes
  • Atividades estressantes
  • Calor intenso
  • Banhos muito quentes
  • Alimentos com alta quantidade de nitratos, como bacon, cachorro quente e carnes embutidas.

Fontes e referências

  • Sociedade Brasileira de Cefaleia
  • National Institute of Neurological Disorders and Stroke
  • Mayo Clinic
Este conteúdo ajudou você?
Sim Não