COVID-19 pode afetar os testículos e a qualidade do espermatozoide

Estudo da USP revela como o coronavírus se instala no sistema reprodutor masculino e impacta a fertilidade do homem. Entenda

Entre as diferentes consequências que o coronavírus pode acarretar ao organismo humano, tem chamado a atenção o impacto do vírus na fertilidade de pessoas com testículos. Foi o que revelou um estudo conduzido por cientistas da Universidade de São Paulo (USP). Conforme mostrou a pesquisa divulgada no início de setembro, o vírus se aloja nos testículos e pode diminuir a qualidade dos espermatozoides. Entenda:

COVID-19: como impacta os testículos e a fertilidade do homem?

Isso acontece porque tem se descoberto com o avanço dos estudos que o coronavírus (SARS-CoV-2) consegue se alojar pelas mais variadas partes do corpo.

Uma das regiões que o coronavírus encontra condições de se proliferar é, justamente, os testículos, uma vez que o órgão reprodutor apresenta altos níveis de células ECA2 (receptor-chave para a internalização do coronavírus em nosso corpo).

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De acordo com Fernando Leão, urologista e Cirurgião Robótico do Hospital Israelita Albert Einstein, ao se alojar nos testículos, o coronavírus provoca microtrombos que geram isquemia e lesões das células testiculares - principalmente as produtoras de espermatozoides e as células produtoras de hormônio.

"Esse estudo mostra uma queda na questão da motilidade (movimentação espontânea) de espermatozoides, que está ligada à fertilidade. Houve uma redução em torno de 40% a 50% do valor mínimo considerado normal. Em relação aos níveis séricos de testosterona, esses valores tiveram diminuição de 50% a 80% sobre os considerados normais. São interferências importantíssimas da COVID-19 em relação à função testicular", diz Leão.

O médico ainda aponta que a redução na movimentação dos espermatozoides é o que mais chama atenção no estudo: "A motilidade dos espermatozoides, que aparentemente foi a alteração mais comumente encontrada, é a capacidade deles se locomoverem de uma maneira rápida e reta para que atinjam o seu objetivo, que é a fecundação. Então, essa alteração na motilidade é a mais importante decorrente da contaminação testicular pela COVID-19."

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COVID-19 "desce" igual a caxumba?

Quando se fala em uma infecção viral que atinge os testículos, facilmente vem à cabeça a caxumba e o inchaço escrotal causado pela doença. No caso da COVID-19, o processo é bem diferente.

Isso porque o coronavírus não é um vírus que gera esse tipo de sintoma. "Ao contrário da caxumba, em que recomendamos repouso ao paciente para que não haja uma propagação desse vírus a nível sistêmico, não é de conhecimento de que a COVID-19 necessite disso [como prevenção para o coronavírus se instalar nos testículos]. É uma preferência do vírus se dirigir para certas regiões do organismo e o testículo é uma delas", explica Leão.

Como saber se a COVID-19 afetou a fertilidade?

Como enfatiza o urologista, o trabalho desenvolvido pelos cientistas da USP traz uma importante contribuição para a avaliação de pacientes que foram acometidos pela COVID-19 - desde os casos assintomáticos, até os graves. A partir do histórico do paciente, é possível fazer exames que avaliam como está a fertilidade do paciente - como o espermograma.

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"Se a pessoa tiver uma alteração de fertilidade, seria interessante repetir essa avaliação respeitando o ciclo da espermatogênese (produção de espermatozoide) - esse ciclo em média, vai de 80 a 90 dias. Na presença de uma alteração de fertilidade, principalmente motilidade, uma alteração que sugere contaminação pelo coronavírus, vale repetir o exame com, pelo menos, o intervalo de 80 a 90 dias para que se tenha certeza realmente de que esse paciente tem alguma alteração na sua fertilidade e tentar correlacionar com a COVID-19."

Para avaliar a queda dos níveis de testosterona, vale realizar exames no paciente e observá-lo no mesmo sentido que os exames referentes ao espermatozoide.

Fertilidade masculina: cuidados com a COVID-19

Pessoas com testículos precisam ficar atentas em situação de contaminação pelo coronavírus no que diz respeito ao tratamento recebido. "Mesmo no paciente assintomático, o adequado é fazer uma prevenção contra embolia para prevenir uma possível alteração da função testicular decorrente da contaminação da COVID-19", aponta o urologista.

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Ele ainda alerta que a reposição de testosterona de forma direta não é recomendada em um primeiro momento. "Sabemos que a reposição de testosterona, de uma forma simples e direta, em pacientes muitos jovens, causa um quadro de atrofia do testículo. Em médio prazo, o que seria uma ajuda para o paciente em uma fase inicial, pode se transformar em um transtorno enorme", indica o médico. Como alternativa, o indicado é a administração de medicamentos que induzem o corpo a produzir, naturalmente, o hormônio.