Depressão acaba com desejos e força de vontade

Ela ainda não é vista como doença e é motivo de preconceitos.

Por Especialista - publicado em 03/02/2011


Apesar de se falar cada vez mais em depressão, um ponto essencial parece incompreendido: a depressão rouba o desejo e a vontade. O desejo quase ausente ou diminuído revela diferentes níveis da doença. Isto é até sabido por muitos, mas frequentemente esquecido no dia a dia, trazendo mais inconvenientes para quem sofre da depressão e para aqueles com quem convive.

É comum que o próprio doente se veja como um inútil por fazer menos do que já desejou, sem a autonomia para alterar seus comportamentos e sentimentos. As pesquisas que revelam alterações bioquímicas e metabólicas na atividade cerebral ainda são pouco difundidas e, por isso, poucos as conhecem. Assim, é difícil mudar a ideia que o sujeito é sempre capaz de comandar sua vontade simplesmente escolhendo isso. Essa visão causa ainda mais prejuízos a autoestima do deprimido. 

É comum que o próprio doente não saiba que está com depressão e se veja como um inútil por fazer menos do que já conseguiu

Já vi casos em que o doente não percebe que está com depressão, sem conseguir mais ser o que era apesar de tentar e, com vergonha de si mesmo, tenta o suicídio. E quando o suicídio falha vem a ajuda de profissionais da área de saúde e o diagnóstico da depressão, surpresa: "Então o que eu tenho é uma doença?! Dá pra tratar!'

Junto aos rótulos de "vagabundo" e "inútil" é comum também ouvir "o que te falta é força de vontade!". Interessante pensar é que a pessoa diz isso não se dá conta do que fala. É o mesmo que saber que um carro está sem combustível e querer que ele ande! É o desejo que nos move! Sem desejo não há vida e não há motivação.

A bioquímica cerebral é alterada com a depressão. E, uma vez que o cérebro é nosso quartel general, se ele não vai bem todo o corpo sofre as consequencias. A bioquímica cerebral está intimamente ligada com nossos hormônios. Nossos hormônios correm o corpo, inundam nossos sentidos, por isso, as sensações durante a depressão são muito diferentes. Não se vê mais a beleza que se via, o mundo fica meio cinza. Músicas não trazem mais vontade de dançar. A comida perde o gosto ou serve pra preencher um vazio, tentar matar ansiedade. O corpo fica pesado mesmo que você emagreça. Os movimentos parecem não ter tanta precisão, respirar é difícil. A relação com o tempo muda: "pra sempre" ou "nunca mais".  

Tudo leva mais tempo e nessa lentidão do tempo o que ocupa o espaço são pensamentos negativos e culpas. Lembranças tristes ocupam o presente. Regiões frontais do nosso cérebro responsáveis por perspectiva ficam pouco ativadas, por isso, não se consegue projetar futuro. Falta esperança e a fé!

E todo este inferno interior costuma mudar pouco por fora: o semblante desanimado, a falta de cuidados pessoais e desleixo. Muito diferente de feridas expostas que disparam a compaixão e cuidado de quem vê.

A depressão é uma doença complexa que não tem cura simplesmente saindo com os amigos para tomar uma cerveja ou dando uma voltinha no shopping , isso é coisa de gente que não tem depressão. A diferença está até no pensamento. Alguém que está bem pode pensar: "se preciso sair, vou sair!!" Mas quem tem depressão diz: "como é que eu vou fazer pra sair da cama" . Pra entender isso imagine que você recebeu dose de alguma droga que altere seus sentidos e precise sair para um compromisso. Você vai simplesmente "sair" de casa? 

Outra coisa comum que se diz a quem tem depressão: "você tem que querer melhorar!" A depressão acaba com o desejo, portanto, se o paciente ter vontade de melhorar já está no lucro. Se você agir com quem tem depressão de maneira coerente com o fato de que o desejo está diminuído, reduzirá a sensação de impotência de quem está neste estado. Se você tem depressão, lembre que é uma doença, e você precisa de tratamento. 


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Giovana

Escrito por:

Giovana Tessaro

Psicologia

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