Bruxismo infantil: será que meu filho tem?

A doença é comum em crianças, mas nem sempre representa um problema

POR NATHALIE AYRES - PUBLICADO EM 20/01/2016

Bruxismo parece um nome assustador, mas na verdade ele indica um problema bucal muito simples: "é uma desordem funcional do sistema mastigatório que é caracterizada pelo ato de encostar, ranger ou apertar os dentes e pode acontecer de dia ou durante o sono, sendo de forma consciente ou inconsciente", considera a odontologista pediátrica Fabíola Lanfredi, especialista em ortopedia funcional dos maxilares.

Esse problema acomete pessoas de todas as idades, mas costuma ser bem comum em crianças. "Ele pode ocorrer até os dois anos, e até os seis muitos especialistas até consideram-no normal, uma forma fisiológica do organismo se adaptar à dentição e ao encaixe dos dentes", ressalta a odontologista Ana Carolina Martinez, especialista da Sorridents e do Instituto Sorridents.

A ação costuma se tornar um problema quando ocorre por um período prolongado ou ocasiona algum sintoma incômodo para a criança. A seguir, veja as maiores dúvidas sobre o bruxismo infantil e como reconhecê-lo:

Qualquer criança pode desenvolver bruxismo?

Criança dormindo em cima dos livros - Foto: Getty Images
Crianças sobrecarregadas com tarefas e com poucos momentos de lazer são mais propensas a ter bruxismo

O bruxismo pode aparecer em qualquer criança, mas algumas apresentam fatores de risco mais favoráveis ao surgimento do problema. Ainda não se conhece completamente as causas do bruxismo, até por que se trata de um problema multifatorial, mas as mais discutidas são:

  • Origem local: em que são citadas as interferências dentais e anormalidades nos contatos entre os dentes superiores e inferiores
  • Origem sistêmica: respiração bucal, asma, as alergias respiratórias e os distúrbios gastrointestinais ou mesmo neurológicos
  • Fatores psicológicos e emocionais: alterações de rotina da criança, estresse, ansiedade, muitas atividades extracurriculares, épocas de provas, competições escolares, períodos de dificuldade de aprendizagem, troca de escola, hiperatividade, problemas familiares e situações associadas a cobranças, seja dos pais, da escola ou mesmo autocobrança
  • Fatores hereditários.

No entanto, as questões psicológicas estão entre os fatores de risco que mais preocupam e se tornam cada vez mais frequentes. "Um dos fatores principais é o emocional: crianças ansiosas, estressadas ou mesmo sobrecarregadas e sem momentos de lazer têm mais chances de apresentar o problema", considera a odontologista Ana Carolina Martinez, especialista da Sorridents e do Instituto Sorridents.

Como saber se é o caso do meu filho?

O bruxismo tem como principal sintoma o ranger dos dentes, que pode ser percebido pelos pais. "Normalmente eles relatam ouvir o barulho do ranger dos dentes dos filhos, principalmente durante o sono, que causam a impressão de que a crianças está comendo pedrinhas, resultado do forte atrito entre os dentes", explica considera a odontologista pediátrica Fabíola Lanfredi, especialista em ortopedia funcional dos maxilares.

Elas podem apresentar também sintomas como dor muscular na face, devido ao desgaste dos músculos ligados à articulação temporomandibular, aquela que executa os movimentos da boca.

Observar os dentes das crianças também é importante. Eles podem apresentar um desgaste no esmalte ou em camadas mais profundas, deixando as pontas dos dentes mais aplainadas e lisas e até mesmo diminuindo sua altura. "Os dentes podem apresentar também trincas e fraturas devido aos contatos excessivos entre si", ressalta a especialista. Por isso é fundamental fazer visitas periódicas ao dentista.

A criança só range os dentes a noite?

Menino ansioso antes de dormir - Foto: Getty Images
Bruxismo pode também aparecer durante o dia, mas é mais comum a noite

Muitas pessoas associam o bruxismo a um ranger dos dentes durante a noite, mas o hábito pode aparecer durante o dia também em períodos de preocupação, estresse e excitação.

O hábito pode passar sozinho?

O bruxismo pode ser uma reação fisiológica normal da criança quando ela está em processo e crescimento dos dentes de leite. "A partir dos 6 anos, quando a dentição de leite já nasceu, a tendência é que o hábito de ranger os dentes diminua", explica a odontologista Ana Carolina.

No entanto, mesmo que seu filho apresente o bruxismo antes dos seis anos, sempre vale a pena conversar com o odontologista para avaliar o caso e verificar se não há algum problema mais sério relacionado.

Como é o tratamento?

O bruxismo é um quadro de difícil diagnóstico e por ser um problema multifatorial, o tratamento pode envolver desde orientações aos pais sobre aspectos comportamentais, acompanhamento odontológico, psicológico e até indicação de medicamentos. "A odontologia normalmente atua em procedimentos restauradores, tratamentos ortodônticos e/ou ortopédicos funcionais e placas de mordida. O uso da placa de mordida em crianças é controverso, pois interfere no crescimento natural das arcadas dentárias", considera a odontopediatra Fabíola Lanfredi. Mas em algumas situações, principalmente no caso de crianças ansiosas, é preciso entrar com acompanhamento psicológico e até mesmo usar medicações. Mas isso varia conforme a avaliação dos especialistas.

Que hábitos é preciso mudar?

Criança lambuzada de chocolate - Foto: Getty Images
Chocolates e outros alimentos estimulantes podem aumentar as crises de bruxismo

Hábitos de alimentação estão diretamente relacionados ao bruxismo. "Os pais devem evitar alimentos pastosos e prontos, estimulando consumo de itens fibrosos e em pedaços pequenos, desde que a criança começa a apresentar sua dentição", sublinha a odontologista Ana Carolina. Dessa forma, a criança não compensará a ausência de estímulo à mastigação roendo os dentes. "Além disso, hábitos de chupeta e mamadeiras errados podem interferir na mordida, propiciando o bruxismo também", completa a especialista.

Quando o bruxismo se relaciona com a ansiedade, alguns alimentos podem virar vilões: "a ingestão de substâncias estimulantes como café, chocolate e refrigerantes também pode ter influência no bruxismo", considera Fabíola. Por isso é importante reduzir o consumo desses itens.

Falando em ansiedade, hábitos que a reduzem são muito importantes, a começar durante o sono. "Realizar uma boa higiene do sono, propiciando um ambiente calmo e tranquilo que anteceda o sono, evitando assistir televisão ou usar o computador ou videogame antes de ir para a cama é fundamental", ressalta a especialista.

Além disso, é importante evitar que as crianças tenham seu dia tomado de tarefas. "O ideal é não sobrecarregar crianças com atividades, elas têm que ter tempo de relaxar e se divertir", relembra Ana Carolina.

Por que é importante diagnosticar o bruxismo cedo?

Crianças com bruxismo não tratado têm muito mais chances de desenvolver disfunções do ATM, que se apresentam com sintomas como dores

O diagnóstico precoce é fundamental para preservar a saúde bucal das crianças. "Ele tem a importância de controlar e prevenir danos aos componentes do sistema mastigatório, além melhorar a qualidade de vida, bem-estar e conforto", explica Fabíola.

Crianças com bruxismo não tratado têm muito mais chances de desenvolver disfunções do ATM, que se apresentam com sintomas como dores na face, dores de cabeça, travamento do maxilar e inchaço na lateral do rosto. "A sintomatologia dolorosa depende da frequência, intensidade e idade do paciente em relação à duração do hábito", frisa a especialista. Levar a criança sempre ao dentista e ao pediatra ajuda a descobrir o problema desde cedo, portanto é importante não negligenciar esse hábito.