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Álcool, drogas e problemas psiquiátricos: uma combinação perigosa

Pessoas com histórico de doenças emocionais na família tem mais um motivo para evitar essas substâncias

Atualmente a dependência química se constitui num grave problema de saúde pública, com sérias consequências para o futuro dos jovens e sociedade em todo o mundo. Existe uma porcentagem significativa de adolescentes abusando ilegalmente de drogas, tabaco e álcool. Um cada quatro alunos do ensino médio tem usado uma droga ilegal pelo menos uma vez durante ao mês, enquanto cerca de 12% dos alunos da oitava série usaram mais de uma droga ao mesmo tempo no mesmo período.

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O pesquisador norte-americano McCaffrey argumenta que, embora a maconha seja a droga mais frequentemente usada, o aumento das taxas de heroína, cocaína e alucinógenos são de particular preocupação devido à natureza mortal destas substâncias. Ele também afirma que milhões de adolescentes fumam e bebem regularmente, fatores de risco para uso de drogas. McCaffrey era o diretor do Escritório de Política Nacional de Controle de Drogas durante a administração do presidente Bill Clinton.

O problema, é que muitas vezes o uso dessas substâncias pode estar relacionado à incidência de doenças psiquiátricas. No DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Norte-Americana de Psiquiatria) que engloba o abuso e a dependência a substâncias, encontra-se frequentemente a associação de substâncias psicoativas a outras patologias psiquiátricas. Assim diante de um paciente com uso de drogas, seja dependência ou uso abusivo, deve-se sempre investigar a existência de outra doença psíquica; como causa ou como consequência.

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Trabalhos científicos têm mostrado uma elevada incidência de 13% da associação de doença mental com uso abusivo de substâncias. Observações inversas também ocorrem, pois em clínicas especializadas no atendimento ao dependente químico a associação com transtornos mentais também é maior em relação à população geral. Na esquizofrenia e no transtorno bipolar, em quase metade dos pacientes aparece a associação com abuso ou dependência de substâncias psicoativas.

Quem nasceu primeiro?

Mas é o uso de drogas pode desencadear quadros psiquiátricos ou quadros psiquiátricos desencadeiam o uso de drogas?

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Um dos modelos científicos que tenta explicar esta associação entre o uso de substâncias psicoativas e os distúrbios psíquicos seria uma pré-disposição para a doença mental. Neste caso a droga apenas desencadearia e agravaria os sintomas mentais adormecidos, como já citamos anteriormente.

O segundo modelo mostra que essa associação se dá em função do indivíduo que apresenta algum distúrbio psíquico e busca na droga um alívio ou espécie de "automedicação". Ela aliviaria os sintomas de sua ansiedade, depressão, angústia, medo e outros sintomas desta ordem. Existem mais modelos, mas estes dois são os mais facilmente compreendidos.

Uma explicação mais simples é que as substâncias psicoativas atuam justamente na neurotransmissão do cérebro. Todo nosso trabalho mental: pensamentos, sentimentos, ideias, comportamentos são devido à presença de substâncias no cérebro que são chamados de neurotransmissores (como serotonina, adrenalina, noradrenalina, dopamina entre outros). O aumento destas substâncias no cérebro pode produzir aceleração, euforia, insônia; e ao contrário a diminuição delas causa letargia, fadiga, depressão. As substâncias psicoativas (drogas) agem justamente nesse mecanismo, e com os neurotransmissores alterados podemos ir de um estado de euforia até um estado de psicose (ouvir vozes, ter alucinações) ou em polo contrário, de um simples estado de lentificação mental até a depressão profunda.

Predisposição genética

Existem diversos estudos atualmente evidenciando que existe uma predisposição genética ao uso ou de álcool ou de outras drogas. Da mesma forma que nascemos com tendência a apresentarmos diabetes, hipertensão, doenças reumáticas; também apresentamos predisposição genética para uso de drogas. E isto pode ser facilmente pesquisado estudando-se os ancestrais familiares que tinham alguma relação doentia com álcool ou outras drogas.

Portanto quem tem histórico de problema psiquiátrico na família não deve nem pensar em usar essas substâncias. É querer "cutucar a onça com vara curta" no dizer popular. Comunicado de outra forma, podemos ter as tendências a diversas doenças "adormecidas" dentro de nós: se nos colocarmos em situações estressoras, as tendências "acordam" e se manifestam como doenças.

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Isto vale também para outras doenças: como exemplo posso ter a tendência hereditária para diabetes, mas se não estiver acima do peso, não fumar, não for estressado, a tendência poderá não se manifestar como doença. Da mesma forma na psiquiatria: posso ter a tendência ao pânico, se usar uma substância essa tendência pode se transformar e se manifestar em doença, no caso a síndrome de pânico. Mais grave ainda quando as tendências hereditárias são para as doenças depressivas, para as psicoses.

Isso depende mais do tempo de uso ou da psique da pessoa?

Essa pergunta é muito relevante: são importantes o tempo de uso, a tendência ou pré-disposição à doença mental, o tempo de uso da substância, a quantidade de substância ingerida, a tolerância à substância química, e ainda a qualidade usada.

Vamos abordar primeiro a tolerância, que é um conceito que ainda não comentamos. Tolerância pode ser definida como a maior ou menor resistência a determinada substância. Usemos o álcool como exemplo: há pessoas que com uma taça de champanhe já se sentem alteradas, e outros podem beber várias taças e não sentem os efeitos nocivos do álcool; isto é válido para outras substâncias psicoativas também.

Outro fato importante é a qualidade da substância ingerida, inalada ou injetada. Sabe-se que grande parte das drogas é extremamente impura e misturada ou refinada com produtos extremamente tóxicos e que podem trazer risco de vida imediato. Tem-se noticiado a ingestão inclusive de bebidas de origem duvidosa, e que tem produzido acidentes fatais. Depois de abordarmos estes dois fatores, vamos pensar em tempo e quantidade de uso.

A predisposição à doença mental também é muito importante não esquecer que a pessoa que possui a tendência a distúrbio psíquico deve ficar longe de qualquer tipo de substância psicoativa, ou de drogas.

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Vamos abordar então o tempo de uso e a quantidade de uso e iniciaremos novamente pelo exemplo da ingestão de álcool. Ninguém fica alterado fazendo um brinde com uma taça de vinho ou champanhe; entretanto se a pessoa ingerir uma garrafa de vodca vai certamente ficar embriagada - a quantidade de substância ingerida é extremamente importante. Igualmente relevante é o tempo de uso: o uso esporádico de alguma substância não deverá trazer maiores danos, mas o uso contínuo e por grande período de tempo trará muitos danos ao organismo. Novamente tomando o álcool como exemplo, ele causa repercussões tanto físicas (cirrose, gastrite, câncer) como psíquicas (prejuízo cognitivo, mnêmico, alterações de comportamento e até a demência alcoólica). O exemplo que demos em relação ao álcool é de maneira geral válido para outras drogas.

Deve-se salientar que algumas drogas mesmo com pequeno tempo de uso produzem danos irreparáveis - como o crack, a heroína, a cocaína e drogas sintéticas, como certos tipo de anfetaminas e de ácidos. Resumindo: tudo se soma em prejuízo ao usuário de droga: a predisposição a doenças psíquicas, a tolerância, a qualidade da substância, a quantidade de uso e o tempo de uso.

Agora que sabemos como o álcool e as drogas em geral podem causar problemas, no meu próximo vamos falar um pouco sobre como algumas dessas substâncias específicas podem causar danos psiquiátricos nos pacientes.