PUBLICIDADE

O que você está olhando?

Voyeurismo, palavra chique, francesa, que significa ver, olhar...

Mas, apesar do termo elegante, a palavra está intimamente ligada a algo pouco permitido ou comentado como tudo relacionado à sexualidade. Sabe-se que acontece, mas comigo ou na nossa família nem pensar! Voyeurismo é o ato de observar pessoas em situação íntima sem que esta saiba que é vigiada. Ocorre geralmente em situações ligadas à prática sexual, corpos desnudos e cenas que levam o observador à excitação sexual.

Bem, apresentando o tema assim, fica muito próximo da prática sexual hedionda, agressiva e interdita. Talvez ocorresse desta forma em outras épocas, nas quais a sexualidade e corpos nus eram totalmente impensáveis
de se ver ou imaginar.Vale a pena dar um pequeno espaço a Freud que, no início do século, já falava disso, mas fazia questão de distinguir voyeurismo de curiosidade. A curiosidade apenas se transforma em voyeurismo, quando o objetivo desta prática é a obtenção do prazer sexual de uma pessoa e, nessa situação, muito mais do que
agressor, ele se torna o voyeurista, uma vítima da sua incapacidade de se

relacionar abertamente com outrem e, dessa maneira, exclusiva e viciosa, dar vazão ao seu desejo.

Estimular o desejo, a partir de estímulos visuais, como representações de atos sexuais, nudez e outras imagens excitantes pode, antes de ser uma perversão ou doença, ser somente um jogo erótico.

Os primeiros terapeutas sexuais ou sexólogos consideravam o voyeurismo como perversão, certamente, por terem como sujeitos de seus estudos psicóticos ou outros indivíduos comprometidos de uma forma ou outra.

Hoje, no consenso de estudo da sexualidade, voyeurismo é um traço normal, embora possa, como qualquer outro, assumir formas compulsivas ou exclusivas de expressão da sexualidade. Na maioria das vezes, o voyeur patológico usa essa forma de se expressar, muitas vezes na adolescência, em nome da timidez ou complexos de várias ordens.

O que normalmente se chama de voyeurismo reflete o interesse natural pelo sexo oposto, ainda hoje em maior número dos homens em relação às mulheres. São principalmente os impulsos voyeuristas masculinos que sustentam a indústria pornográfica na maioria dos países modernos.

Embora não seja um traço exclusivamente masculino, é indiscutível que no homem ele é mais evidente. Naturalmente pela ainda superior liberdade sexual masculina, destarte os clubes das mulheres que ingressaram nos anos 80 e sob o disfarce de espetáculo, deram alvará às mulheres para brincarem disso. Vejam bem, apenas brincadeira.

Bem, a intenção inicial desse artigo, era comentar o voyeurismo oficial. Nesse caso, com mais eficiência no imaginário feminino dos programas de TV tipo ´reality show´. Nada contra, apenas se, como no caso do voyeurista patológico, seja o início de instrumento possível para viajar nas possibilidades que a vida dá... para o outro.

A televisão, de maneira geral, instiga essa prática de viver uma Second Life . As novelas mostram histórias do cotidiano, alimentando essa porção voyeur fazendo com que o prazer seja o mesmo da criança espiando pela fechadura do vizinho. E a internet? É o universo do infinito, onde incontáveis voyeurs viajam na busca incessantes de ver, saber, ler e fuçar!

Mas prestem atenção! Isso não é só critica, desde que tudo tenha limites muito claros, usar todas as possibilidades de saber mais do outro e conhece-lo só vai me enriquecer como ser humano. Normal, saudável, inofensivo? Tudo depende da intenção. Atire a primeira pedra quem nunca quis ser uma mosquinha para espiar por aí? Afinal, de médico e louco todo mundo tem um pouco.

(*) Márcia Atik é psicóloga e terapeuta sexual.