Por que as variantes de coronavírus preocupam?

Veja quais são as variantes do coronavírus e por que as mutações do SARS-CoV-2 preocupam por aumentarem a contaminação

Atualizado em 14/07/2021

Descobertas sobre as novas variantes do coronavírus estão causando preocupação na comunidade científica por elevarem os riscos de contaminação. Tais mutações dos vírus, assim como de qualquer outro ser vivo, são esperadas e consideradas um processo comum da natureza. Mas, num contexto de pandemia, acendem um sinal de alerta.

Até o momento, quatro variantes consideradas preocupantes do patogênico foram identificadas. De acordo com um anúncio dado pela Organização das Nações Unidas (ONU), as nomenclaturas oficiais de cada uma delas são:

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Variante britânica: B.1.1.7/Alpha

Variante sul-africana: B.1.351/Beta

Variante brasileira: P.1/Gama

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Variante indiana: B.1.617.2/Delta

Novas mutações do coronavírus: por que preocupam?

Desde a identificação do coronavírus pela comunidade científica, nomeado de SARS-CoV-2, novas linhagens desse mesmo vírus foram descobertas por cientistas.

Uma das linhagens do coronavírus é a B117, identificada no Reino Unido. De acordo com as especialistas, a variante britânica causa preocupação por sua alta capacidade de transmissão entre os seres humanos - um efeito gerado pela mutação na proteína spike nesta linhagem do SARS-CoV-2.

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A proteína spike é uma das estruturas-chave para entender a interação do SARS-CoV-2 com o corpo humano. Com um formato semelhante a uma coroa pontiaguda (por isso o nome), a proteína se conecta aos receptores ACE2 do corpo - molécula enzimática encontrada em regiões como vias respiratórias, coração e rins.

"Essa variante fez uma mutação que trouxe uma melhora para a adaptabilidade para o vírus e ele se espalha melhor nos hospedeiros, que somos nós. Com essa mutação na proteína, temos uma maior chance de contrair o vírus. Isso talvez signifique que precisemos de uma exposição menor ou uma quantidade menor [de vírus] para atingir a doença", diz Lina Paola, infectologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Além da B117, outras que chamam a atenção são as variantes brasileiras P1 e P2, assim como a variante da África do Sul, a B.1.351.

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"Além das citadas, temos também as a B1.427, a B1.429 e a B1.526. Elas têm deixado cientistas em alerta por terem surgido recentemente. Além delas, existem mais variantes em rastreamento devido à preocupação de circulação. As variantes novas se mostraram mais agressivas e mais transmissíveis. Porém, precisamos de estudos objetivos e não observações pontuais; mais seis meses para caracterizar melhor esta fase", diz Lina Paola.

De acordo com Lina Paola, essas novas variantes preocupam pela possibilidade de serem mais graves e letais. "Se estas mutações têm sucesso e causam maiores complicações no sistema de saúde como um todo, ele pode colapsar, e assim termos muitas mortes", pontua a médica.

Em janeiro de 2021, o governo do Reino Unido soltou um comunicado alertando sobre a possibilidade da variante B117 aumentar o risco de morte. Lina Paola, porém, reforça que ainda é cedo para afirmar esta hipótese por algumas limitações do estudo - apontados pelo próprio comunicado britânico.

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"O estudo precisa de uma população e dados estatísticos maiores. Existe uma preocupação sim. Mas isso foi visto lá no Reino Unido. Precisamos de mais estudos e ver com que força isso vai acontecer com a nossa população. Ainda não temos dados suficientes para confirmar isso. Só o tempo vai definir se essa linhagem nova está ligada a maior severidade e letalidade", diz a infectologista.

Variante indiana no Brasil (Delta B.1.617.2)

A variante delta (B.1.617.2), também conhecida como variante indiana, foi detectada pela primeira vez em território brasileiro no estado do Maranhão. Segundo a Secretaria de Saúde do estado, seis casos de infecção pelo patogênico foram confirmados em tripulantes do navio Shandong da Zhi, vindo da África do Sul para a capital, São Luís.

Responsável por provocar mutações na proteína S, a Delta se tornou motivo de preocupação entre os órgãos de saúde pelo seu alto nível de contaminação. No Reino Unido, 90% dos casos de infecção foram provocados pela variante. Ainda segundo pesquisas, a mutação pode infectar e causar complicações em pessoas que tomaram apenas a primeira dose dos imunizantes disponíveis contra o coronavírus.

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No Brasil, no início de julho, uma gestante de 42 anos se tornou a primeira vítima da Delta no país. A mulher grávida veio do Japão para Apucarana, norte do Paraná, e sentiu os primeiros sintomas da doença dois dias após o desembarque. Antes de embarcar para o Brasil, a mulher havia realizado um primeiro teste RT-PCR, mas o resultado foi negativo.

Variante Lambda (C.37)

Em um recente estudo realizado no Peru, pesquisadores revelaram que mais uma variante do coronavírus, descoberta em dezembro de 2020, está circulando pela América do Sul. Denominada "Lambda", a cepa já é encontrada no Brasil, se tornando responsável por três casos de infecção e uma morte, até meados de julho de 2021.

"A expansão de C.37 ocorreu na América do Sul na presença das centenas de linhagens em circulação como alfa e gama, sugerindo uma transmissibilidade aumentada desta linhagem. Contudo, são necessários dados e as análises epidemiológicos adicionais para avaliar sua transmissão, virulência e propriedades de escape imunológico", apontou a pesquisa.

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Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a variante se desenvolveu através de oito mutações na proteína spike. Os registros apontam que o patogênico está presente em sete nações latino-americanas, representando 81% dos casos no Peru, 37% na Argentina e 32% no Chile.

Os cientistas peruanos acreditam que a Lambda possui o potencial de alcançar a alta taxa de transmissão da variante brasileira Gama (P.1). Entretanto, ainda segundo o estudo, as vacinas podem ajudar a neutralizar a cepa.

Cepa, linhagem, variantes: o que são e diferenças?

Com a descoberta de novas linhagens de coronavírus, muito tem se falado sobre "cepas", "variantes", "mutações"... Mas o que significam todos esses termos?

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Segundo Jane Teixeira, infectologista e gerente médica da Sharecare, seres vivos possuem materiais genéticos em sua composição (RNA e DNA) e, ao se reproduzirem cópias de tais estruturas, não é raro que alguns "erros" aconteçam: as mutações.

"Quando uma célula ou vírus se divide para formar novas cópias, ocorre também uma reprodução do seu material genético. A mutação é um 'erro', uma troca de um desses pedaços [de material genético] por outro", fala a médica.

Essas pequenas trocas são capazes de mudar completamente alguma característica do vírus e acontecem o tempo todo. "Dependendo da característica modificada, o vírus pode ficar mais fraco, mas pode também ter mais capacidade de propagação, ser mais resistente a medicamentos e ser mais letal", completa.

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É isso o que acontece com a cepa SARS-CoV-2, o coronavírus, que desde o fim de 2019 vem causando a pandemia de COVID-19 pelo mundo. "Estamos vendo mutações na linhagem do SARS-CoV-2, os "filhos" do vírus. Mas é a mesma cepa, com mudanças pontuais no código genético que permitem que o vírus se perpetue melhor no mesmo ambiente", explica Lina Paola.

De forma resumida, podemos entender os termos e diferenciá-los da seguinte maneira:

Os sintomas são diferentes?

Uma das preocupações geradas com as variantes do coronavírus é se as mutações do SARS-CoV-2 seriam mais graves, com sintomas de COVID-19 mais acentuados ou mais mortais.

"Não descobrimos outros sintomas ou que o B117 seja mais grave. É o mesmo vírus e causa os sintomas que falamos há meses. Assim, essa mutação não está relacionada a sintomas mais graves, mas à transmissibilidade: temos um vírus que está mais eficiente na transmissão e não na gravidade, porém, se temos mais casos, é provável que tenhamos mais pacientes que, individualmente, evoluem para casos mais graves. Quando temos milhões de infectados ao mesmo tempo, temos mais casos graves por esse milhão de infectados; a chance de mais casos graves aumenta", pontua a médica.

Vacina é eficaz contra mutações do coronavírus?

A identificação de linhagens de coronavírus traz uma preocupação com relação à eficácia das atuais vacinas aprovadas contra a COVID-19. Um estudo feito pelo governo do Reino Unido constatou que as vacinas Pfizer/BioNTech e AstraZeneca/Oxford são "altamente efetivas" contra uma das variantes indianas do novo coronavírus.

A pesquisa, feita entre 5 de abril e 16 de maio, analisou quanto cada imunizante é capaz de reduzir casos sintomáticos de COVID-19 causados pelas variantes B.1.1.7, encontrada na Inglaterra, e a B.1.617.2, que teve início na Índia. Segundo os dados divulgados, uma única dose de ambas as vacinas promove 51% de proteção contra a cepa britânica, e 33% contra a indiana após três semanas de imunização.

Com a segunda dose da Pfizer, o nível de proteção apresentado contra a B.1.1.7 subiu para 91% duas semanas após a vacinação. Contra a variante B.1.617.2, a porcentagem aumentou para 88%. Já a fórmula da AstraZeneca apresentou 66% de efetividade contra a variante britânica e 60% contra a indiana - ambas, após duas semanas desde a aplicação da segunda dose do imunizante.

Ainda sobre a proteção das vacinas contra as variantes do coronavírus, um estudo preliminar da Coronavac mostrou que o imunizante é eficaz contra variantes britânica, sul-africana e a brasileira.

Segundo Lina Paola, embora a preocupação de que as vacinas não sejam eficazes para as novas linhagens de SARS-CoV-2, é preciso que a população seja vacinada. "Uma vez montada a resposta de anticorpos para o vírus, o corpo vai ter uma proteção cruzada que vai proteger de possíveis mutações. Podemos vir a ter a doença, mas de forma mais branda", diz a médica.

Com a proteção cruzada, embora não seja a mesma linhagem de vírus que esteja entrando em contato com o corpo, características genéticas dele ainda estão intactas, o que faz com que o organismo consiga responder com anticorpos e reagir contra a doença que ele causa. Isso é a proteção cruzada. "Por isso, é recomendada a vacinação: por trazer essa proteção cruzada", enfatiza Lina Paola.

A médica ainda adiciona um possível cenário de adaptações das vacinas para o futuro, caso as mutações sigam ocorrendo. "Se tivermos uma mutação maior, provavelmente teremos que, a cada seis meses, mudar a composição das vacinas para criarmos uma resposta imune para a linhagem que circula no momento. Isso não quer dizer que, ao surgirem mutações pontuais, não teremos proteção", conclui a especialista.

Brasil como celeiro de novas variantes de coronavírus

Chama atenção da população brasileira e do mundo a crise sanitária que o Brasil vive e a descoberta de novas variantes do vírus no país.

Conforme explica Lina Paola, o Brasil favorece as condições para a criação de novas variantes de coronavírus por sua elevada taxa de circulação e transmissão elevada.

"Portanto há muito mais chances de acontecer mutações que dão lugar às variantes", explica a médica. "Neste momento, até onde sabemos, a variante que mais circula [no Brasil] é a de Manaus. Porém não há dados completos de circulação das outras existentes."