Obesidade infantil pode antecipar a puberdade em meninas

Entenda melhor quando os problemas estão relacionados e o que isso tem a ver com a puberdade precoce

A obesidade infantil é um problema cada vez mais comum: uma em cada três crianças entre cinco e nove anos está acima do peso no Brasil. Além de trazer diversas doenças sistêmicas, como diabetes tipo 2 e problemas articulares, a obesidade infantil está também relacionada à antecipação da puberdade nas meninas.

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"Não sabemos ao certo o mecanismo desta relação, mas acredita-se que meninas com obesidade tenham uma biodisponibilidade do hormônio estrógeno aumentada", conta a endocrinologista pediátrica Angela Spinola, professora adjunta e chefe do setor de Endocrinologia Pediátrica do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A antecipação da puberdade é comum principalmente em casos de obesidade causada por influência do baixo peso ao nascer. "Muitas crianças têm maior tendência à obesidade por terem nascido pequenas para a idade gestacional. E, com isso, elas apresentam tendência a alterações do colesterol e resistência à insulina, os principais fatores que aumentam a biodisponibilidade do estrógeno", explica Angela.

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A relação entre baixo peso e a obesidade futura é um mecanismo de defesa do organismo: "O baixo peso e a desnutrição materna durante a gestação podem provocar um atraso no ganho de peso do bebê, que nasce pequeno para a idade gestacional (PIG). Isso aumenta o risco de obesidade no futuro para essas crianças, pois a restrição alimentar leva a uma adaptação metabólica do bebê com a facilidade posterior de acumular gordura", completa a nutricionista Clarissa Fujiwara, mestre em ciências pela Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com Angela, essas crianças não costumam ter a menstruação adiantada ou nem mesmo alterações de crescimento. "Normalmente, só o crescimento das mamas, que chamamos de telarca, ocorre mais precocemente", explica a especialista. Por isso o quadro é chamado de puberdade antecipada, e não puberdade precoce.

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Para se caracterizar a puberdade precoce, é preciso que a criança tenha começado o desenvolvimento puberal muito cedo, ou seja, antes dos oito anos para as meninas, ou antes dos nove anos no caso dos meninos; ou com uma velocidade acima do normal, o que quer dizer que mesmo que ela se desenvolva só depois desta idade, ela já está com idade óssea mais avançada que o normal.

"Na antecipação da puberdade, a criança se desenvolve um pouco antes, entre os sete e oito anos, mas as mudanças ocorrem no intervalo de tempo certo e a altura dela está proporcional à sua idade óssea", contextualiza Angela. Ou seja, a criança cresce e se desenvolve antes das outras, mas sua estatura final não é prejudicada. Mas é importante lembrar que a puberdade antecipada precisa de uma orientação adequada dos pais, pois a menina pode se sentir diferente das amigas e, com isso, apresentar problemas de autoestima.

Apesar de mais raro, a obesidade infantil também pode estar relacionada à puberdade precoce verdadeira quando estiver associada a outros fatores de risco.

De qualquer modo, se notar algum sinal antecipado de puberdade (crescimento de pelos pubianos para ambos os sexos, aparecimento das mamas para as meninas ou aumento do volume dos testículos nos meninos), busque a orientação do pediatra, que poderá fazer o encaminhamento correto caso necessário. Ir regularmente ao médico com seu filho, ajuda a monitorar se os caracteres sexuais estão se desenvolvendo no tempo certo e também se o peso da criança está normal para a idade.

Prevenção

Para prevenir a obesidade infantil alguns cuidados são fundamentais em diversas fases, desde a gravidez até a primeira infância:

Gravidez equilibrada

"Hoje já sabemos que a alimentação e a saúde da mãe na gestação repercutem na programação metabólica da criança", explica a nutricionista Clarissa Fujiwara.

Normalmente, as crianças com mais tendência a desenvolver obesidade são as que nascem grandes para a idade gestacional (GIGs), já que seu peso pode ser resultado de quadros metabólicos da mãe, como a diabetes gestacional. Mas não se pode esquecer que as crianças que nascem muito pequenas para a idade gestacional (PIGs) também podem apresentar alterações em seu organismo.

Por isso, é importante que a gestante tenha uma alimentação equilibrada, alimente-se de cinco a seis vezes ao dia, consumindo muitas hortaliças e sempre optando por uma proteína magra nas refeições principais.

Amamentação

Amamentar a criança também é um ponto importante. "Durante a amamentação, a criança interrompe quando se sente satisfeita, estimulando seu mecanismo inato de regulação de saciedade", considera Clarissa.

Além disso, a alimentação da mãe deve ser variada nesta fase, pois o leite materno tem partículas de sabor e aroma que variam com a dieta materna.

Os primeiros alimentos

Depois dos seis meses de idade, o leite materno precisa ser complementado, mas é muito importante não introduzir alimentos ricos em sal e açúcar para que a criança aprenda a gostar dos alimentos in natura.

"É importante estimular uma variedade de consumo de hortaliças, cereais, tubérculos, leguminosas e carnes para a criança criar um repertório mais vasto", considera Clarissa.

Exemplo é fundamental

A criança aprende a comer observando os pais. "Na refeição em família, ela vê o quanto os adultos se servem de comida, o que eles consomem e quais alimentos consideram gostosos. Tudo isso cria uma educação alimentar", ressalta Angela Spinola. Por isso mesmo, o ideal é que os pais repensem seus hábitos alimentares, pois se os filhos não os virem gostando de um alimento, certamente não vão querer experimentá-lo.

E se a criança já estiver obesa?

De acordo com a endocrinologista pediátrica Angela, reverter a obesidade pode reduzir o risco da antecipação puberal. Entretanto, isso vai variar se o processo de antecipação da puberdade já começou e se a idade óssea da criança ainda não está muito avançada.

"No entanto, é preciso ter muito cuidado com esse emagrecimento da criança, buscando uma orientação adequada. A perda de peso deve ser regulada com seu ritmo de crescimento", pondera a endocrinologista.

Tendo a orientação adequada de um endocrinologista e um nutricionista, é importante que os pais criem uma disciplina alimentar na criança. "Estabelecer horário para comer é a medida mais importante para que as refeições sejam planejadas e a criança exercite as sensações de fome e saciedade", considera Clarissa Fujiwara.

Reduzir o tempo diante de telas (como celular, tablet, computador e televisão) também ajuda, principalmente se a atitude vier acompanhada de um estímulo a brincadeiras físicas e ao consumo de frutas e verduras para obtenção de energia para brincar.