Diagnóstico de transtorno bipolar leva até 10 anos

Problema confunde os médicos e pode levar ao suicídio

POR REDAÇÃO - PUBLICADO EM 24/10/2008

O transtorno é conhecido por rodear o mundo os famosos. No Brasil, a atriz Cássia Kiss e a escritora Clara Averbuck já assumiram sofrer com a bipolaridade. Por muito tempo, o problema foi considerado um transtorno de luxo e até confundido com frescura. Mas as pesquisas apontam que o caso é bem mais grave, havendo tentativas de suicídio em 15% dos casos. Para entender um pouco as conseqüências e os tratamentos existentes para esse problema o MinhaVida entrevistou a psiquiatra e conselheira científica da ABRATA (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos), Alexandrina Meleiro.



1. O que é o transtorno bipolar?
O Transtorno Afetivo Bipolar (também conhecido como TAB) é multidimensional e caracteriza-se por alterações patológicas, cognitivas e psimocomotoras. Geralmente, divide-se em fases de episódios únicos ou repetidos. Uma crise pode ter início inesperado, e sumir espontaneamente, ou apresentar curso crônico ao longo da vida. Os sintomas são de intensidade leve, moderada ou grave, podendo ser incapacitante. Há uma fase depressiva, que pode ser seguida por um período de normalidade, seguida pela euforia, exaltação do humor e grandiosidade, voltando para um período de normalidade.

2. Os médicos conseguem fazer o diagnóstico facilmente? O diagnóstico não é fácil. Muitas vezes, as pessoas passam dez anos para ter o diagnóstico correto, indo a várias consultas médicas antes de encontrar um especialistas que desconfie do transtorno bipolar.

3. Estas duas fases do problema acontecem uma seguida da outra? Ou há intervalo?
No transtorno afetivo bipolar, existem duas fases: a depressiva e a expansiva ou mania. Na fase depressiva temos alterações no humor: depressivo, anedonia (não sente prazer nas coisas), disforia (alteração do humor com sentimento desagradável), desesperança, culpa excessiva e ideação suicida.

No organismo temos alteração do ritmo circladiano com baixa energia, iniciativa diminuída, pouco apetite, alteração do sono (insônia ou hipersonia), alteração da libido. Ainda ocorrem alterações cognitivas como, apatia. Há aspectos dos Episódios Maníacos e Maníacos Mistos. Na fase de mania pura, o humor fica elevado, eufórico ou irritável, expansivo, grandioso e impulsivo, disfórico/misto, depressão e ansiedade, irritabilidade mista, hostilidade ou violência. Do ponto de vista cognitivo, teremos: pensamentos acelerados, distratibilidade, pouco insight , desorganização, atenção reduzida, compreensão diminuída.

Fisicamente percebemos que : fala rápida e pressionada, elevada energia, necessidade reduzida por sono, libido elevada, comportamento social excessivamente ativo ou hostil, destruição de propriedade, comportamento bizarro, imprudência,anormalidades endócrinas e do sono. Alguns pacientes podem apresentar sintomas de mania psicótica que incluem: ilusões, alucinações e hiperatividade sensorial.

4. Existe uma idade em que as pessoas ficam mais vulneráveis ao problema?
Sim. Atualmente, a maioria dos diagnósticos ocorre em pessoas entre 15 a 25 anos, embora exista uma tendência ao diagnóstico de TAB cada vez mais em crianças e adolescentes.

5. Qual a causa do transtorno?
Existem múltiplos fatores, mas os genéticos são fundamentais: metade dos pacientes bipolares têm pelo menos um dos pais com o mesmo problema. Os fatores psicossociais, em geral, são apenas desencadeantes das crises: perda de emprego, morte de ente querido, separações, etc. Fatores ambientais como dieta, álcool, ritmo biológico, podem desencadear em indivíduos biologicamente vulneráveis.

6. Como uma pessoa com transtorno bipolar se sente?
O deprimido fica indeciso e avalia a si mesmo de forma pessimista. As situações ao redor dele também são vistas de forma negativa, numa distorção da realidade. Esses pensamentos tomam conta da atenção do paciente na maior parte do dia. Dificuldades reais são amplificadas pelo pessimismo, podendo abrir espaço até mesmo para idéias suicidas.

Na fase de mania ao contrário, sentimentos e pensamentos são distorcidos para o positivo exagerado: há um colorido grandioso, aumento de auto-estima, segurança excessiva de si mesmo (podendo correr risco de morte nesta fase), sensação de riqueza, de poder, dons especiais. Às vezes aparecem temas eróticos, desafiadores, religiosos, ausência de medo, ausência de crítica, aumento da impulsividade com conseqüências desastrosas.

7. Existe algum tratamento? A doença é pra vida toda?
Existe tratamento, mas como a doença tem caráter crônico, o controle deve ser contínuo (exatamente como acontece com quem tem problemas no coração, pressão alta ou diabetes, por exemplo). Na fase depressiva existem antidepressivos com poucos efeitos colaterais, eficazes e bem tolerados que devem prescritos por médico habilitado em utilizar estas medicações.

Na fase de mania usa-se um neuroléptico de nova geração, por ter menor número de efeitos colaterais. Importante que nós dois casos a introdução de um estabilizador de humor não deve ser esquecido. Além dos remédios é fundamental a abordagem psicossocial e as psicoterapias que variam de terapias psicodinâmicas; terapia cognitiva comportamental, psicanálise, terapia familiar, tratamento em regime de ambulatório e tratamento em regime de internação, de acordo com a gravidade do caso. Esses tratamentos visam reduzir morbidade e mortalidade, além de identificar precocemente os novos episódios, minimizar a deterioração funcional, promover atividade de rotina e padrões de sono.

8. Pessoas com esse transtorno podem se tornar perigosas?
O maior perigo nas pessoas com TAB é o suicídio (as tentativas ocorrem em 15% dos casos). Na fase depressiva, o risco é maior chegando até 60% em alguns casos, nas fases de mania psicótica, ou ciclagem rápida o risco de suicídio também é elevado.

Agora o risco de agressão, ou tentativa de homicídio só ocorre se o paciente não segue o tratamento adequadamente, ou se há ligação com outros transtornos como abuso de álcool, outras drogas psicoativas, transtorno de personalidade e traços de impulsividade. Mas sob tratamento as pessoas com TAB podem trabalhar, cuidar de casa, ter filhos, estudar como qualquer indivíduo.

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