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Autismo em adultos: como o diagnóstico tardio faz diferença?

Identificar o transtorno do espectro autista é fundamental para direcionar o tratamento e garantir a qualidade de vida dos pacientes

O autismo ainda é um assunto cercado por muitos tabus e preconceitos. Não à toa muitas pessoas dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) são diagnosticadas apenas na fase adulta e não durante a infância. É o caso de José Amorim Filho, um brasileiro de 34 anos que representa uma grande parcela de pacientes que encaram esta realidade.

Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), o autismo afeta uma em cada 160 crianças no mundo. No Brasil, a estimativa é que 2 milhões de pessoas tenham o transtorno do espectro autista em algum grau. Porém, a demora e a dificuldade de um diagnóstico preciso ainda na fase infantil atrapalha o tratamento que garante uma qualidade de vida melhor a esses indivíduos.

Sinais de autismo em adultos

O TEA é caracterizado como um conjunto de déficits persistentes na comunicação e interação social em múltiplos contextos, de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V). Ainda não se sabe a causa exata do autismo, mas fatores genéticos e agentes externos, como estresse, infecções, exposição a substâncias tóxicas, complicações durante a gravidez e até mesmo desequilíbrios metabólicos podem estar relacionados com o transtorno.

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Em geral, uma pessoa é diagnosticada com TEA ainda criança, já que a maioria dos pais suspeita de algo no comportamento do filho antes dos 18 meses de idade e busca ajuda antes que ele atinja os dois anos. Além disso, atualmente, é direito dos cidadãos fazer o teste CHAT (usado para identificar o autismo) pela rede pública de saúde, segundo a lei nº 13438/2017.

Porém, há muitos casos de pessoas com TEA que esperam o diagnóstico até a fase adulta. De acordo com a neuropsiquiatra Gesika Amorim, especialista em saúde mental e neurodesenvolvimento infantil, o autismo em adultos apresenta sintomas típicos do transtorno, como:

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Este é o cenário vivido por José Amorim Filho. Diagnosticado aos 32 anos com autismo, o pastor de São Luis do Maranhão tem seus rituais matinais, não gosta de quebras de rotina e tem um jeito próprio de se comunicar - mas isso não quer dizer que ele seja calado ou algo do tipo. Pelo contrário.

"Meus pais sempre acharam que eu tinha alguma dificuldade de relacionamento com as pessoas. Nunca tive muitos amigos, sempre gostei de ter uma vivência só: no máximo, um ou dois amigos. Sempre fui muito de estar dentro de casa", lembra o rapaz sobre sua infância.

Descoberta tardia e preconceito

Foto: José Amorim Filho/Acervo Pessoal
Foto: José Amorim Filho/Acervo Pessoal

A investigação de Amorim para o seu quadro de autismo partiu por conta própria. Aluno de destaque na graduação de Psicologia, como sempre fora em qualquer curso que se determinava a estudar, ele foi incentivado por professores a procurar especialistas em TEA para averiguar se este era o seu caso, depois que os docentes notaram alguns sinais.

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"Eu tenho facilidade em aprender. Isso me ajudou muito na socialização. Sempre fui um aluno em destaque na escola. No ensino médio, comecei a pensar sobre essa possibilidade, mas tudo ficou mais claro e evidente quando eu estava na faculdade. Dois professores achavam que a minha capacidade intelectual estava muito além dos alunos da turma e me chamaram em particular. Eles perceberam que eu tinha movimentos estereotipados", conta.

Na época, Amorim estava em um programa da Universidade Federal do Maranhão, a fim de realizar uma cirurgia bariátrica. "Eles me encaminharam para uma psicóloga e ela me enviou para o núcleo de psiquiatria e neurologia. Eu fui avaliado, em um processo duradouro, de alguns meses, e, então, diagnosticado com autismo", diz.

Não foi fácil para o rapaz, na ocasião, descobrir o TEA. Junto com o diagnóstico, vieram crises de ansiedade e uma negação de sua condição. "Mesmo sendo aluno de Psicologia, eu não queria aceitar. Quando eu saí do consultório, lembro que eu tinha que assistir à aula e não consegui. Liguei para minha mãe e minha esposa em prantos. Eu dizia, naquele momento de angústia: 'eu quero ser normal'. Mas descobri que o maior problema não era o diagnóstico, mas o preconceito", afirma.

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É exatamente na luta contra o preconceito às pessoas com TEA que Amorim se empenha. Atualmente, com a ajuda dos pais, irmãos, esposa e professores, o pastor compreende muito melhor o diagnóstico e usa o próprio caso para difundir o que é o autismo - com a intenção de fazer com que o transtorno não seja mais um tabu para a sociedade.

Diagnóstico de autismo em adultos

Casos de autismo diagnosticados tardiamente costumam ter os mais variados motivos. Um deles está atrelado à situação de pacientes que apresentam sintomas leves e, quando criança, passam despercebidos por seus responsáveis.

"O adulto que passou por uma infância e adolescência sem diagnóstico, provavelmente, é um paciente dentro do espectro da forma leve, ou seja, como se falava antigamente, é uma pessoa dentro da síndrome de asperger. Isso depende muito da janela de oportunidades que este adulto teve na infância, se recebeu algum tipo de suporte psicológico, fonoaudiólogo ou terapêutico", afirma Gesika.

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Outro motivo pode ser um quadro clínico presente no paciente que faz com que o diagnóstico de TEA acabe ficando mascarado. "Por exemplo, um indivíduo com deficiência intelectual cujo diagnóstico de TEA não tenha sido avaliado de maneira mais aprofundada", explica o psiquiatra Norton Kitanishi, do Ambulatório de Diagnósticos do Instituto Jô Clemente (antiga APAE de São Paulo).

Existe o próprio preconceito sobre o estereótipo da pessoa autista, que barra possibilidades de que indivíduos fora desse padrão estejam dentro do espectro. "Durante muito tempo, existiu a crença de que autista era aquele que ficava sozinho, mudo e se balançando no canto. Com a evolução da medicina e da neurociência, descobrimos que as características existentes no espectro vão desde o autismo severo (Kanner) até autismo leve (Asperger)", afirma Gesika.

Desse modo, é possível encontrar autistas que levam uma vida normal, com dificuldades inerentes do transtorno, mas que chegam a se casar e se descobrem autistas depois. Amorim, por exemplo, é casado e pai de um menino de quase dois anos.

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Vale dizer, entretanto, que uma pessoa não desenvolve o autismo ao longo da vida. "Não é possível desenvolver os sintomas de TEA na vida adulta. Apesar dos manuais diagnósticos não imporem uma idade limite, é consenso que, obrigatoriamente, os sintomas devem estar presentes desde cedo no desenvolvimento, ou seja, desde os primeiros anos de vida", explica Norton Kitanishi.

Como identificar o autismo na vida adulta

Tecnicamente, o diagnóstico de autismo em um adulto acontece da mesma forma com que é realizado em crianças: especialistas (geralmente psiquiatras e neurologistas) fazem rodadas de entrevistas com o paciente e também com familiares, utilizando materiais da literatura científica, para concluir o diagnóstico.

Não existe exame laboratorial ou de imagem específico para o diagnóstico do autismo. Geralmente, o que ajuda os médicos a identificarem um indivíduo com TEA na fase adulta são os sinais típicos do espectro. Desse modo, é imprescindível procurar especialistas para investigar o quadro, caso haja suspeitas.

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Autismo em adultos e crianças: há diferença?

Não existe diferença entre adultos e crianças autistas. "Não existe um autista igual ao outro, bem como não existe um autismo igual ao outro. O que temos é todo o espectro do autismo, que pode existir em qualquer faixa etária: adultos e crianças, leves e graves", afirma Gesika.

"O adulto que não tem o diagnóstico de autismo, provavelmente, será classificado com TOC e outras manias. Aquele que gosta de ficar sozinho, que não gosta de socializar, que não entende piada, que gosta de fazer sempre as mesmas coisas, usar sempre as mesmas roupas, comer sempre as mesmas comidas, no mesmo lugar", acrescenta a médica.

Tratamento de adultos com autismo

O tratamento para adultos com autismo é sempre individualizado, com uma equipe que pode envolver diferentes profissionais, pensando no tipo de ajuda que o paciente precisa. Amorim, atualmente, é acompanhado por uma psiquiatra.

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"Os adultos chegam com transtornos de humor e quadros depressivos, por não se entenderem e não conseguirem se aceitar, por não conseguirem se incluir e serem aceitos pela sociedade e pela família. Logo, é preciso tratar essas condições também. Uma ferramenta importante é a psicoterapia", diz Gesika.

Por que é importante diagnosticar adultos autistas

Concluir o diagnóstico de adultos autistas acarreta em inúmeros benefícios ao indivíduos. Em termos práticos, isso envolve direitos sociais, com usar fila preferencial, além de desconto em impostos, como o IPVA, lembra Kitanishi. Mas não é só isso. Diagnosticar adultos com autismo também proporciona melhorias na qualidade de vida da pessoa.

"A partir do momento que você consegue dar um nome para a doença que você tem, na maioria das vezes, traz um alívio, porque você começa a se entender. As respostas para todas as questões que a pessoa e a família tinham desaparecem. Porque tem nome para o que ela sente e vive. Logo, vem a aceitação", afirma Gesika.

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Do ponto de vista social, há também a ampliação do debate sobre o que é o autismo e a contribuição para que cada vez mais crianças sejam diagnosticadas ainda na infância de maneira correta.

"Antigamente, falava-se muito pouco sobre o autismo e a imagem que se tinha do autista clássico era daquela pessoa que não se comunicava e ficava num canto, rodando, se balançando. Hoje em dia, já sabemos que o espectro é muito mais amplo. Essas crianças muitas vezes recebem um diagnóstico de TDAH ou depressão e trata-se, na verdade, de autismo", diz a neuropsiquiatra.

É exatamente essa conscientização que espera Amorim. "Infelizmente, sentimos muito preconceito. Nas filas de prioridade, por exemplo, que é um direito, as pessoas não entendem e é constrangedor dizer 'eu sou autista'. Quantas crianças ainda não receberam o diagnóstico e sofrem em casa, vivem um mundo isolado, deprimidos e são rechaçados pela família e pela sociedade", conta.

É exatamente essa conscientização que espera Amorim. "Infelizmente, sentimos muito preconceito. Nas filas de prioridade, por exemplo, que é um direito, as pessoas não entendem e é constrangedor dizer 'eu sou autista'. Quantas crianças ainda não receberam o diagnóstico e sofrem em casa, vivem um mundo isolado, deprimidos e são rechaçados pela família e pela sociedade", conta.

O pastor reforça ainda que o poder público precisa ter um olhar mais humanizado para a questão autista. "Onde ele não chega, a informação também não chega e, quando chega, vem defasada. Isso também é um preconceito em relação ao autismo", reflete o rapaz.

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