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Consumo de álcool entre brasileiros que já bebiam aumenta 20% em seis anos

Estudo mostra que 20% dos adultos bebedores consomem 56% de todo o álcool vendido no país

O consumo excessivo de álcool - duas vezes por semana ou mais - aumentou 20% nos últimos seis anos entre os brasileiros que já tinham o hábito de beber. Se for considerada apenas a população feminina, esse aumento foi de 34,5%. Os dados são do Segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), organizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e divulgados dia 11 de Abril.

Foram realizadas entrevistas com 4.607 pessoas maiores de 14 anos, em 149 municípios de todas as regiões brasileiras, durante o ano de 2012. Os participantes responderam a um questionário com mais de 800 perguntas, que tinha como objetivo avaliar o padrão de uso de álcool, tabaco e drogas ilícitas, além de fatores associados ao uso problemático dessas substâncias, como depressão e violência. A pesquisa contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) por meio do Instituto Nacional de Políticas sobre Álcool e Outras Drogas (Inpad).

A boa notícia é que o número de abstêmios configura mais da metade (52%) da população brasileira. Porém, entre os bebedores, além do aumento de 20% na frequência, houve uma aderência maior a um padrão de consumo considerado nocivo e batizado de "binge" - quatro unidades de álcool para mulheres e cinco para homens em uma única ocasião. Os bebedores com comportamento binge aumentaram de 45% para 59% nos últimos anos, e mais uma vez a proporção é maior quando se considera apenas a população feminina, que passou de 36% para 49%, enquanto entre os homens a mudança foi de 51% para 66%.

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Os dados mais preocupantes apontam que 20% dos adultos bebedores consomem 56% de todo o álcool vendido no país. O levantamento mostrou também que dois em cada dez bebedores apresentaram indícios para abuso ou dependência - o que corresponde à realidade de 11,7 milhões de brasileiros. Além disso, 32% afirmaram já não terem sido capazes de parar depois de começar a beber; 10% disseram que alguém já se machucou em consequência do seu consumo de álcool; 8% admitiram que a bebida já teve efeito prejudicial no trabalho e 9% admitiram prejuízo na família ou no relacionamento. O levantamento também mostrou um índice mais elevado de depressão entre os que abusam de álcool: 41% dos bebedores contra 25% da média na população em geral.

Entenda como o álcool afeta seu corpo

O psiquiatra Arthur Guerra, professor da Faculdade de Medicina do ABC, explica que os danos fisiológicos causados por uma intoxicação aguda pelo álcool são reversíveis, mas a lentidão e a perda de consciência podem causar graves acidentes, esses sim com complicações permanentes. Confira a seguir como o álcool age no seu corpo e como afeta sua saúde:

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Estágio 1: enquanto você ainda está sóbrio

Homem bebendo cerveja - foto: Getty Images
Homem bebendo cerveja - foto: Getty Images

A psicobióloga Maria Lúcia Formigoni, chefe do departamento de Psicobiologia da Unifesp, explica que as moléculas de álcool são pequenas e solúveis. Isso significa que elas chegam muito rapidamente a todos os nossos tecidos, principalmente ao fígado, órgão responsável por 90% da metabolização do álcool, que é então transformado em acetaldeído. Essa substância é a responsável pelos efeitos danosos associados ao consumo de álcool. E, mesmo enquanto você está sóbrio, ela já está se acumulando no seu organismo e deteriorando sua saúde. "Os sintomas da ressaca, como as dores de cabeça, a pressão arterial elevada e a taquicardia, são causados pelo excesso dessa substância no organismo", explica a especialista.

Estágio 2: Euforia

Euforia - foto: Getty Images
Euforia - foto: Getty Images

À medida que você continua a beber, a quantidade de acetaldeído presente no seu corpo continua a se acumular. Em consequência, a dopamina - um neurotransmissor relacionado à sensação de bem-estar - atinge níveis cada vez mais altos. "A dopamina age na via cerebral da recompensa e promove a sensação de euforia, felicidade, característica do consumo excessivo do álcool", explica Maria Lúcia Formigoni. No entanto, a especialista explica que essa sensação é relativa e que nem todas as pessoas experimentam as mesmas sensações.

Estágio 3: Instabilidade emocional e depressão do Sistema Nervoso Central

Instabilidade emocional - foto: Getty Images
Instabilidade emocional - foto: Getty Images

Se você continuar bebendo, a sensação de euforia logo dará lugar a outra emoção. "Começa a ser sentido o efeito de outro neurotransmissor, responsável por estimular o sistema GABA (ácido gama-aminobutírico), principal inibitório do Sistema Nervoso Central", explica Maria Lúcia. Ocorre então uma competição entre a dopamina e o sistema Gama, que acaba ganhando a disputa e deprimindo as atividades cerebrais. Em consequência, a ansiedade é diminuída e a sensação de sono aumenta.

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O grande problema está na desestabilização do sistema cerebral. "O funcionamento cerebral anormal resultará em alterações do comportamento, afinal, o controle do sistema racional não está eficiente", conta a psicobióloga.

Estágio 4: Prejuízo do julgamento e da crítica

Menina dançando - foto: Getty Images
Menina dançando - foto: Getty Images

A perda da racionalidade acaba por comprometer a capacidade de julgamento. "O tempo de resposta aos estímulos físicos, visuais e auditivos aumenta muito, todos os reflexos e pensamentos estão alterados", conta Maria Lúcia. Além de aumentar o risco para acidentes, um dos maiores perigos decorrentes do consumo abusivo de bebidas alcoólicas, o indivíduo também se coloca em risco ao fazer escolhas que não faria se estivesse sóbrio. Incluem-se nessa lista: colocar-se em situações vexatórias, correr riscos e consumir bebidas alheias e até mesmo drogas ilícitas.

Estágio 5: Sonolência e adormecimento

Pessoa alcoolizada dormindo - foto: Getty Images
Pessoa alcoolizada dormindo - foto: Getty Images

O psiquiatra Arthur Guerra explica que se um familiar, amigo ou conhecido bebeu demais e acabou pegando no sono, o ideal é mesmo deixá-lo descansar, sempre sob observação. Nesse momento, um cuidado é essencial: certifique-se de que a pessoa intoxicada durma de lado, evitando a aspiração do próprio vômito, que pode ir até as vias aéreas, dificultando ou impedindo a respiração. O especialista conta que levar a pessoa embriagada ao hospital ou pronto-atendimento é a melhor opção caso o cuidador fique inseguro, mas que a glicose, frequentemente administrada nesses casos, só ajuda a resolver o problema quando há uma hipoglicemia associada. "A glicose não ajudará a diminuir a intoxicação por álcool, o único remédio nesse caso, é repouso e hidratação do corpo - seja com água, água de coco, refrigerantes ou até café".

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Estágio 6: Inércia generalizada

Inércia generalizada - foto: Getty Images
Inércia generalizada - foto: Getty Images

Nesse estágio, o indivíduo já não consegue atender aos comandos e as respostas aos estímulos externos estão comprometidas. Andar é praticamente impossível e pode haver até incontinência urinária e fecal. Os riscos de coma alcoólico são altos nessa fase. "O ideal é procurar ajuda profissional em um hospital, já que a saúde está correndo perigo e ser mantido sob observação é muito importante", recomenda Arthur Guerra.

Estágio 7: Coma alcoólico

Coma - foto: Getty Images
Coma - foto: Getty Images

O coma alcoólico acontece em resposta à depressão do Sistema Nervoso Central, que é cada vez maior à medida que se consome a bebida alcoólica. "O cérebro - responsável por mandar estímulos às estruturas responsáveis pela respiração, como pulmão e diafragma, principalmente -, deprimido pela bebida alcoólica, pode deixar de enviar esses impulsos, levando à parada respiratória", explica o psiquiatra Arthur Guerra. Os danos desse extremismo, em alguns casos, podem ser irreversíveis, levando a pessoa à morte.