Como o emocional pode afetar a saúde íntima?

Erica Mantelli, ginecologista, obstetra e especialista em saúde sexual, tira suas dúvidas sobre esse tema e dá dicas de como se cuidar

Todas as alterações emocionais, quando crônicas, e também as situações agudas de muito estresse podem interferir na saúde como um todo. Falando na saúde da mulher e da região íntima, depressão, tristeza profunda ou estresse muito forte podem provocar alterações no ciclo menstrual, cólicas com maior intensidade e mais dor nas mamas. Além disso, mulheres com alterações importantes das emoções podem ter queda de imunidade e, com isso, manifestação de herpes genital, de HPV, infecções crônicas, além de candidíase ou outras vulvovaginites de repetição.

Ciclo menstrual x emoções

O nosso ciclo menstrual também está relacionado com o sistema límbico, que é uma parte do cérebro ligada às emoções. As mulheres podem ficar até meses sem menstruar por decorrência de situações como estresse forte, estresse pós-traumático, tristeza, depressão, excesso de ansiedade ou alguma notícia muito ruim. Em outros casos, a menstruação pode vir fora da data que seria a esperada. Algumas mulheres ainda apresentaram alteração no padrão do fluxo menstrual, podendo ter um fluxo mais aumentado que o normal.

As emoções ainda podem afetar a ovulação, pois as alterações nos sentimentos atingem áreas do cérebro responsáveis por controles de hormônios que vão agir no ciclo menstrual. Com isso, é possível que aconteça um retardo ou mesmo a ausência da ovulação e, mais uma vez, a menstruação da mulher pode ficar desregulada. E tudo isso pode prejudicar a fertilidade dessas mulheres também.

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Candidíase e outras doenças x emoções

Quando falamos de doenças e outros problemas na região íntima, também relacionamos alguma com as alterações nas emoções.

Na grande maioria das vezes, há fatores emocionais relacionados em casos de candidíase, principalmente a recorrente. A mulher que vivencia crises recorrentes se estressa por conta disso, se sente mal. Muitas acabam tendo desconforto, ardência, dificuldade na hora da relação sexual, coceira intensa, e todo esse processo pode aumentar a candidíase porque, por conta de alterações hormonais, pode acontecer uma mudança do PH vaginal e, com isso, acaba tendo uma proliferação maior de bactérias.

Já o estresse crônico pode alterar níveis de cortisol e isso pode ter um impacto tanto na nossa tireoide quanto no nosso ciclo circadiano e também em hormônios sexuais. Isso pode desencadear diversas situações em nosso organismo. Na mulher, pode também provocar alteração no ciclo menstrual, aumento de cólica, dores na hora da relação sexual, mudanças no PH vaginal com aumento de infecções, infecções de urina e vulvovaginais. Há um impacto na saúde da mulher como um todo.

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Além disso, doenças que já tem uma relação com a dor, como a endometriose, tendem a piorar esse quadro de dor quando também há um quadro de estresse crônico.

Cuidando das emoções e da saúde íntima

O corpo fala o tempo todo com a gente, através de sinais, doenças, manifestações crônicas. A mulher deve ficar atenta a esses sinais. Ela deve, por exemplo, observar se naquele período que passou por um estresse importante - pode ser no trabalho, uma briga com alguém importante para ela - se ela começou a apresentar alterações no ciclo, mais cólica. Isso é importante para entender a base das doenças, e nem só aquelas que estão relacionadas à saúde íntima. Muitos males começam com causas emocionais.

É indicado manter os cuidados de higiene com a região íntima, mas não é preciso excesso de limpeza ou uso de sabonetes com corantes e itens como desodorante íntimo. São indicados os sabonetes neutros e com PH fisiológico.

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Também é importante sempre fazer um controle do ciclo menstrual, mesmo que ela use métodos contraceptivos. É importante a mulher ter esse conhecimento. Nós somos cíclicas e essas fases são importantes para cada uma. E cada fase do ciclo existe por um motivo. Vai ter fase com a libido mais aumentada, fase que a mulher estará com o raciocínio mais rápido ou fase que ela vai ficar mais retraída e vai querer mais carinho. Conhecendo cada uma será mais simples notar alterações.

Sempre vale observar como o corpo se comporta depois de um momento de estresse. Algumas mulheres podem ter dor de estômago, outras podem começar a apresentar um corrimento. É importante fazer essas correlações.

Faz parte do tratamento, principalmente no caso da candidíase recorrente, avaliar as questões emocionais. E muitas vezes vai fazer parte do tratamento um acompanhamento psicológico e também uso de psicoterápicos para manejo do estresse e tentar entender qual é a situação que está deflagrando esses problemas todos.

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Faz parte da avaliação completa da saúde da mulher sempre perguntar aspectos físicos e também emocionais: como ela está, como ela se sente, como anda a vida pessoal, se ela está feliz, se ela se sente realizada. Quando uma mulher está naquela situação em que ela não se coloca como prioridade, ela não se cuida. Há casos em que ela se sente desvalorizada ou vivencia um relacionamento abusivo ou tóxico, e tudo isso são fatores desencadeantes de diversas doenças, inclusive as que acometem a saúde íntima da mulher.

O primeiro passo é tentar fazer a mulher enxergar o que está acontecendo e ajudar para que ela consiga sair dessas situações estressantes e até evitar situações que possam alterar suas emoções nesse ponto. Muitas vezes vai ser necessário, além do acompanhamento médico, ter um acompanhamento com psicoterapia e até uso de medicamentos que possam aliviar isso, principalmente em quadros de ansiedade ou depressão muito agudos. Ainda tem o uso de fitoterápico e vitaminas que podem ajudar a melhorar neurotransmissores, os níveis de serotonina. Também pode usar óleos essenciais, praticar meditação, sessões de acupuntura e relaxamento. Vale buscar alternativas para canalizar esse estresse e transformar a energia ruim, para que ela consiga colocar para fora e extravasar. Isso faz parte de uma medicina que enxerga a mulher de uma maneira integral.