AVC isquêmico: sintomas, tratamentos e causas

REVISADO POR
Dra. Camila Cirino Pereira
Neurologia - CRM 159346/SP
especialista minha vida

Visão Geral

O que é AVC isquêmico?

Sinônimos: avc, ave, avci, acidente vascular

AVC isquêmico ou acidente vascular cerebral isquêmico se dá quando há uma obstrução da artéria, impedindo a passagem de oxigênio para as células cerebrais, que morrem - essa condição é chamada de isquemia. A diferença do AVC isquêmico para o AVC hemorrágico é o que segundo decorre do rompimento de um vaso, e não de seu entupimento. A obstrução da artéria pode acontecer por um trombo, que é um coágulo de sangue que se forma na parede do vaso sanguíneo, ou por um êmbolo, que nada mais é do que um trombo que se desloca pela corrente sanguínea até ficar preso em um vaso sanguíneo menor que sua extensão.

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Tipos

Existem cinco tipos de AVC isquêmico:

AVC isquêmico lacunar: esse tipo de AVC isquêmico ocorre quando um trombo é formado em um pequeno vaso, devido a uma inflamação chamada lipo-hialinólise. É comum em pessoas que têm fatores de risco vasculares, como hipertensão.

AVC isquêmico aterotrombótico: a principal causa desse AVC isquêmico é a aterosclerose, doença que causa a formação de placas nos vasos sanguíneos maiores, levando à oclusão do vaso ou à formação de êmbolos . É ocasionado, assim como no lacunar, pela presença de fatores de risco vasculares.

AVC isquêmico cardioembólico: esse tipo de AVC isquêmico ocorre quando o êmbolo causador do derrame parte do coração, no geral decorrente de doenças cardiovasculares, citadas abaixo.

AVC isquêmico de outra etiologia: esse tipo de AVC isquêmico é mais comum em indivíduos jovens, podendo estar relacionado a distúrbio de coagulação do sangue, doença que deixa o sangue mais espesso, a inflamação dentro do vaso sanguíneo(vasculite) e a fragilidade da parede dos vasos que levam sangue ao cerebro(dissecção).

AVC isquêmico criptogênico: quando a causa do AVC isquêmico não foi determinada, mesmo após uma investigação extensa.

Fatores de risco

Os principais fatores de risco do AVC isquêmico são:

Doenças cardiovasculares

As principais doenças cardiovasculares conhecidas que afetam o fluxo sanguíneo são:

Arritmias cardíacas, como fibrilação atrial;Doenças das válvulas cardíacas, como prolapso da válvula mitral ou estenose de válvula cardíaca;Endocardite, que é a infecção das valvas do coração;Forame oval patente, que é um defeito cardíaco congênito;Insuficiência cardíaca;Infarto agudo do miocárdio.

Sintomas

Sintomas de AVC isquêmico

Os sintomas do AVC isquêmico se caracterizam por uma perda neurológica súbita, tais como:

  • Perda de força súbita de um dos lados do corpo, geralmente braço e perna. Quando a paralisia é parcial, é chamada paresia. Se o paciente fica paralisado completamente de um lado, ele está hemiplégico
  • Paralisia facial, quando a pessoa há assimetria do sorriso
  • Sintomas sensitivos, como dormência de uma lado do corpo
  • Alteração da fala. A pessoa pode ter dificuldade de conseguir entender o que as pessoas falam ou conseguir dizer o que está pensando
  • Alterações visuais, como perder uma parte ou totalmente o campo visual
  • Tontura, levando a desequilíbrio e queda.

Diagnóstico e Exames

Buscando ajuda médica

Na presença de qualquer um dos sintomas de derrame citados, é importante ir a um pronto-socorro imediatamente, não sendo necessário esperar um resgate, quando for demorar. Isso porque quanto mais rápido se dá o tratamento, menores são as sequelas decorrentes do AVC isquêmico. Também é importante ter preferência por hospitais que são conhecidamente preparados para receber um paciente em situações agudas do AVC.

A escala pré-hospitalar de AVC deverá ser aplicada para reconhecer os sinais mais frequentes, caso o paciente não esteja com um quadro claro. Dos três itens avaliados, um sinal positivo (com início súbito) é suficiente para suspeitar de um AVC isquêmico:

  • Face: o socorrista pedirá para o paciente dar um sorriso, para verificar se há desvio da boca
  • Força: ele pedirá ao paciente para levantar os dois braços e verá se um deles cai por falta de força
  • Fala: será solicitado ao paciente dizer uma frase qualquer, como “o céu é azul”, para verificar se não há qualquer alteração.

Alguns exames podem ser feitos, durante a internação, para ajudar no diagnóstico do tipo de AVC (isquêmico ou hemorrágico), bem como o que o ocasionou:

Tratamento e Cuidados

Tratamento de AVC isquêmico

Quando você tem um AVC isquêmico, o suprimento de sangue e oxigênio a uma parte do seu cérebro é reduzido e as células cerebrais ficam danificadas e podem morrer.

Quando isso acontece, as partes do corpo controladas por essas células podem não funcionar. A perda de função pode ser leve ou grave, temporária ou permanente. Isso depende de onde e como a parte do cérebro foi danificada e a rapidez com que o fornecimento de sangue foi devolvido para as células afetadas.

O essencial do tratamento do AVC isquêmico é que a busca pelo médico seja feita o mais rápido possível. Na maioria das emergências hoje tem um medicamento chamado alteplase (rt-PA), que deve ser aplicado em até quatro horas e meia após o início dos sintomas. Este medicamento, age deixando o sangue mais fino, a fim de dissolver o trombo formado, o que diminui o risco de sequelas do AVC isquêmico e reduz mortalidade.

Além da medicação, existe um tratamento, que pode ser feito até 8 horas após o início do AVC isquêmico, chamado de trombectomia, que consiste na remoção do trombo da artéria, sendo necessário que o hospital tenha um serviço com neurorradio intervencionista.

Após o tratamento de emergência para AVC isquêmico, quando a condição se estabilizou, o tratamento se concentra na prevenção de outro AVC e na reabilitação das sequelas, com fonoterapeura,fisioterapeuta e terapeuta ocupacional, e por vezes fisiatra.

Convivendo (prognóstico)

Convivendo/ Prognóstico

Durante a recuperação do AVC isquêmico, pode ser preciso aprender a gerir:

  • Perda de movimento ou sensibilidade de uma ou mais partes do corpo
  • Espasmos musculares
  • Problemas de fala
  • Deglutição e problemas alimentares
  • Raciocínio e problemas de memória
  • Problemas na bexiga e intestino

Complicações possíveis

Entre as principais sequelas do AVC isquêmico, podemos destacar:

  • Déficit motor: ocorre quando a área afetada pelo AVC é aquela responsável pelos movimentos do nosso corpo, sendo o lado esquerdo do cérebro responsável pelos movimentos do lado direito e viceversa. É importante a realização de fisioterapia e terapia ocupacional precoce, a fim de reinserir a pessoa nas atividades do dia a dia
  • Déficit sensitivo: diversas áreas do cérebro estão relacionadas à sensibilidade. Quando há lesão de uma delas a pessoa deixa de sentir um lado do corpo. Uma atividade que pode ajudar na recuperação da sensibilidade é expor a área afetada a diferentes materiais, como esponjas, papéis, madeira, lixas ásperas e etc.
  • Afasia: quando o AVC ocorre na área do cérebro correspondente à linguagem(broca e wernicke), é comum o paciente sofrer com a afasia. Ela pode ser dividida basicamente em dois grandes grupos: afasia de expressão (quando o paciente entende o que você fala, mas é incapaz de se expressar pela linguagem falada) e de compreensão (quando ele consegue se expressar de todas as formas, mas não entende o que lhe é dito). É fundamental o trabalho do fonoaudiólogo
  • Apraxias: o paciente de AVC com apraxia perde a capacidade de se expressar por gestos e mímicas e de realizar tarefas motoras em sequências. Por exemplo: a incapacidade de fazer gestos que tenham um significado pré-definido, como o sinal de silêncio, acenar para dar oi ou levantar o polegar em sinal positivo. Nesses casos o paciente precisa reaprender a fazer esses processos. É necessário ensinar novamente essa sequência de movimentos, que deve ser lembrada e exercitada
  • Negligência: decorrente de lesões no hemisfério cerebral não dominande, que na maioria da população é o lado direito. Essa sequela diz respeito a pessoa que negligencia uma parte ou um lado se seu corpo, como se aquele segmento não pertencesse à pessoa. É fundamental estimular o lado afetado do corpo para reduzir a sequela
  • Agnosia visual: entende-se por agnosia visual a incapacidade da pessoa de reconhecer objetos e pessoas através da visão, apesar de essa não ter sido comprometida. Dependendo do grau da lesão, a pessoa pode inclusive não reconhecer mais rostos. É importante exercitar esse lado do paciente, apresentando-o para novos objetos, sempre com muita paciência - uma tática é começar por objetos que faziam parte do cotidiano do paciente antes do AVC
  • Déficit de memória: ocorre quando a região temporal do cérebro é afetada. No geral a pessoa perde a capacidade de lembrar eventos recentes, recordando apenas episódios passados
  • Lesões no tronco cerebral: no tronco cerebral estão localizados centros responsáveis por atividades vitais, como a respiração. Lesões nesta região podem deixar sequelas graves e até mesmo levar à morte. Pacientes com esse tipo de sequela podem apresentar também paralisia nos dois lados do corpo, estrabismo e dificuldades para engolir - cada ponto sendo tratado por sua especialidade específica
  • Alterações comportamentais: Ocasionados por uma lesão na parte frontal do cérebro, as alterações comportamentais são comuns em vítimas de AVC. O indivíduo geralmente passa por quadros de agitação e quadro de apatia, passando por sintomas como perda de iniciativa ou explosões de raiva sem causa aparente. Os cuidadores devem buscar orientação médica, pois em alguns casos pode ser necessário que o paciente seja medicado
  • Depressão: A doença funciona exatamente como a depressão comum, porém se inicia após o AVC. Os sintomas são iguais aos da depressão comum - tristeza, apatia, sono inadequado, transtornos alimentares, entre outros - e pede um tratamento especializado com um psicólogo e com um neurologista ou psiquiatra
  • Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT):é comum em indivíduos com AVC. Sintomas que ajudam a identificar o problema são pesadelos persistentes e tendência do paciente a evitar lembranças do evento.

Prevenção

Prevenção

Muitos fatores de risco contribuem para o aparecimento de um AVC isquêmico. Alguns desses fatores não podem ser modificados, como a idade, a raça, a constituição genética e o sexo. Outros fatores, entretanto, podem ser diagnosticados e tratados, tais como a hipertensão arterial (pressão alta), a diabetes mellitus, as doenças cardíacas, a enxaqueca, o uso de anticoncepcionais hormonais, a ingestão de bebidas alcoólicas, o fumo, o sedentarismo (falta de atividades físicas) e a obesidade. A adequação dos hábitos de vida diária é primordial para a prevenção do AVC.

O objetivo do tratamento depois de um AVC envolve, além de tratar as sequelas que surgem, evitar possíveis eventos futuros. Por isso, mudanças no estilo de vida são uma parte importante do acompanhamento do AVC isquêmico. Veja o que é preciso fazer para impedir um novo derrame:

  • Não fumar ou não permitir que outros fumem perto de você
  • Manter um peso saudável
  • Praticar pelo menos 30 minutos de exercícios na maioria dos dias da semana (caminhada é uma boa escolha)
  • Manter uma dieta equilibrada, pobre em colesterol, gorduras saturadas, açúcar e sal, conforme orientação profissional
  • Controlar a pressão em pacientes hipertensos
  • Controlar glicemia em pacientes com diabetes
  • Seguir tomando as medicações prescritas pelo médico. Após o AVC isquêmico a grande maioria dos pacientes terão que tomar um antiagregante, medicação que afina o sangue, como a aspirina (AAS).

Fontes e referências

  • Renato Mendonça, neurologista do Lavoisier Medicina Diagnóstica
  • Roberto Giraldez é cardiologista do Instituto do Coração (InCor) do Hospital da Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP)
  • André Felício, neurologista doutorado pela UNIFESP/SP, pós-doutorado pela UBC/Canadá, médico e Pesquisador do Hospital Israelita Albert Einstein de São Paulo
  • Sociedade Brasileira de Cardiologia
  • Ministério da Saúde