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Single shaming: o que há por trás da vergonha da solteirice

Entenda de onde vem o conceito da expressão e como lidar com a situação que afeta tantas mulheres ao redor do mundo

Seja através de um olhar que expresse pena ou de algum comentário típico de reuniões familiares (como o famigerado "e os namoradinhos?"), muitas mulheres se sentem frequentemente intimidadas e encabuladas simplesmente por não estarem em um relacionamento romântico com um homem.

Destas situações rotineiras, surgiu a expressão inglesa single shaming (algo como "vergonha da solteirice", em português), que serve para definir diversos acontecimentos onde uma mulher se vê julgada pura e simplesmente por estar solteira - como se o status amoroso definisse a felicidade ou o caráter da pessoa.

Muito além do que um nome, esse termo também está atrelado a uma série de consequências psicológicas e emocionais que impactam diretamente a vida da população feminina. Portanto, é fundamental entender o que está por trás do single shaming para quebrar certos tabus que ainda permeiam a figura da mulher na sociedade.

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De onde vem o single shaming

Na equação social dos relacionamentos, os homens são considerados "completos" mesmo quando não estão namorando ou casados e o status de solteiro faz com que sejam vistos como "machões". Já para as mulheres, o single shaming reserva um sentimento de incapacidade, baixa autoestima, incompletude e até isolamento do restante da sociedade.

"O single shaming mostra que ainda vivemos em um mundo onde homens e mulheres não são tratados com igualdade", explica Gunda Windmuller, jornalista e autora do livro "Mulher, Solteira e Feliz". Isso porque a sociedade ainda associa a figura feminina à instituição do casamento, da família e do lar. E esses conceitos vêm atrelados, erroneamente, à necessidade de estar com um homem.

Por outro lado, o single shaming não parece afetar os homens e, segundo a professora de Sociologia, Eliane Gonçalves, isso ocorre por conta dos sistemas de gênero. "Significa que a sociedade atribui valoração diferenciada a homens e mulheres em todas as situações e contextos. Apenas a maternidade é simbolizada positivamente, o que também não significa que ela seja valorizada de fato", aponta.

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Solteira e feliz: não é possível?

O single shaming faz com que as mulheres sintam que devem convencer os outros que sua felicidade não está ligada, de nenhuma forma, a uma relação romântica. "Uma solteira feliz soa como uma inverdade, porque há uma ideologia do casamento, da família perfeita, da felicidade conjugal", afirma Elaine Gonçalves.

Nesse sentido, Gunda acrescenta que essa mulher é considerada "desnatural" e em estado de negação sobre o que realmente quer - enquanto consideram os homens capazes de ter uma vida feliz apenas com a carreira, por exemplo. "[Para a sociedade] mulheres não devem ter poder, nem sobre a sua própria felicidade", diz a escritora.

A questão é que quebrar esse estereótipo que cerca as mulheres não é uma tarefa fácil, principalmente quando ele é reforçado por amigos, familiares e conteúdos midiáticos que consumimos todos os dias. Séries e filmes populares, como O Diário de Bridget Jones e Sex and the City, retratam a mulher solteira se afundando no sofá, com seu pijama e um pote de sorvete, enquanto sofre e se martiriza por não estar em um relacionamento - daí temos um perfeito exemplo do single shaming.

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Tanto para Gunda quanto para Elaine, esse retrato é prejudicial às consumidoras e sustenta mitos como o do amor romântico, do relacionamento como único meio para a felicidade e do "cara certo". Assim, todos esses elementos fazem com que mulheres que não se encaixam no "em um relacionamento sério" sintam que há algo de errado com elas.

Além de reforçar ideias machistas e prejudicar o modo como as mulheres enxergam a si próprias, o single shaming promove a ideia de que relacionamentos românticos são uma necessidade, uma evidência de felicidade e sucesso.

"Amor e relacionamentos se tornaram objetos, algo sobre o qual as pessoas se gabam e se sentem superiores por tê-los. Mas estar em um relacionamento não é uma conquista. Ser capaz de sustentar relacionamentos é uma conquista. Isso inclui amigos, colegas e familiares, não necessariamente um parceiro", afirma.

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Como lidar com o single shaming

Antes de sofrer por estar solteira, Gunda Windmuller pede para que a mulher se pergunte: "o que estou procurando?". "Se o que você busca é validação, eu te prometo: um parceiro não irá te proporcionar isso a longo prazo. É você quem dá seu valor próprio", diz a autora.

O single shaming faz com que as mulheres se sintam mais conectadas com o que a sociedade espera delas do que com o que realmente querem. Por isso, criar um vínculo consigo mesma é fundamental e o amor próprio é uma peça importante nesse processo.

Testar novas habilidades, aprimorar aquelas que já tem, aproveitar as coisas boas que já estão presentes e se conectar com o seu corpo, vida e mente, são algumas maneiras de exercer o autocuidado e a autoestima.

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Mas, tão importante quanto essas gentilezas que as mulheres devem se oferecer, é destrinchar os estereótipos em volta da figura feminina e enxergar que eles são "ferramentas que nos forçam para uma vida que não escolhemos", reflete Gunda. Algumas dicas dadas pela autora para lidar com o single shaming são:

Foto: JGI/Jamie Grill
Foto: JGI/Jamie Grill

União e empatia feminina

Outra questão que deve ser lembrada é que muitos dos estereótipos que sustentam o single shaming são reforçados pelas próprias mulheres. Por isso, o diálogo é muito necessário, para que todas possam se apoiar, principalmente quando confrontadas com padrões impostos sobre elas.

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"Talvez as mulheres precisem aprender mais na convivência umas com as outras e a acreditar na confiança que emerge deste encontro. Sem isso, a reprodução do machismo é apenas uma evidência", pondera Eliane Gonçalves.

Portanto, as mulheres devem se posicionar sempre que presenciarem ou forem vítimas de single shaming, além de estarem atentas para não praticá-lo, conversando umas com as outras sobre assuntos variados (como carreira, festas, programas de TV, sonhos e objetivos), sem focar apenas em relacionamentos.

Como conselho final, Gunda orienta: "nunca comece um relacionamento se você não o quer de verdade. Só há uma pessoa com quem você precisa ter uma boa relação, e é você!".

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