Gordofobia: por que ainda temos aversão a corpos gordos?

Mesmo com tantas discussões sobre diversidade, ainda há falta de respeito com corpos gordos, que nem sempre significam falta de saúde

Entre os diferentes tipos de preconceito que ainda persistem, a gordofobia é um mal que perdura mesmo com tanta discussão sobre diversidade no século 21 e quebra de padrões estéticos. Mas qual é o motivo de tanto incômodo com corpos gordos?

Para entender melhor por que uma pessoa gorda ainda causa tanta aversão na sociedade, conversamos pessoas do movimento anti gordofobia a fim de saber como é possível quebrar o preconceito contra pessoas gordas. Também falamos com especialistas da área da saúde para entender se é possível ser saudável com um corpo fora do padrão.

Gordofobia: por que corpos gordos incomodam

A gordofobia é o preconceito a corpos gordos, uma aversão a quem apresenta sobrepeso ou obesidade.

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De acordo com Bianca Salgado, nutricionista clínica com abordagem comportamental, uma das origens dessa aversão a corpos gordos vem da pressão estética que movimenta a sociedade e que coloca padrão estético magro como sinônimo de positivo e o gordo como negativo.

"Essa pressão é responsável por movimentar milhões de reais, em diversos nichos econômicos, a partir da ideia de que a estética do corpo ideal emagrecido é algo alcançável desde que haja 'força de vontade' e foco nesse objetivo", conta a nutricionista.

Bianca completa: "É a busca incessante pelo ideal de magreza imposto, símbolo da beleza, sucesso e motivação, que aumenta nosso julgamento e insatisfação com nossos próprios corpos e, principalmente, com os corpos que se distanciam mais dessa estética, como o corpo gordo. Isso atrela a esse corpo um estereótipo negativo, injusto e que afeta diretamente o bem-estar e a vida dessas pessoas".

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A ativista anti-gordofobia e digital influencer Mari Lima, dona do canal Moda Plus Size Brasil, concorda. Segundo a influenciadora, o primeiro motivo para a aversão a corpos gordos está na visão negativa que ainda se mantém sobre essa população.

"A primeira questão que as pessoas se incomodam é que o corpo gordo está relacionado, infelizmente, a outras características ruins: desleixado, preguiçoso, folgado. E, claro, do ponto de vista estético. Nós vamos contra tudo aquilo que as pessoas pregam, que é estar em um padrão e ter um IMC baixo. Elas também acreditam que uma pessoa saudável tem que estar magra. As pessoas associam magreza com saúde e hoje em dia sabemos que não é assim", diz Mari.

Obesidade é doença ou não?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) elenca a obesidade como doença na Classificação Internacional de Doenças. De acordo com Mário Carra, presidente do departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a obesidade crônica e não transmissível existe desde sempre, mas a informação demorou para ser explicitada.

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A nutricionista Bianca ainda lembra que as causas da obesidade são de ordem multifatorial, e vão além da má alimentação como se costuma pensar.

"A obesidade possui diversas influências. Inclusive dentro da variável alimentar existem alguns fatores que vão além das escolhas alimentares do indivíduo, como as questões de acesso à alimentação adequada e o ambiente alimentar em que vivemos. Além dessas questões ainda temos muitas outras de natureza fisiológica, ambiental e social", explica, e finaliza: "Nem toda pessoa gorda terá uma alimentação ruim, cada caso deve ser avaliado dentro de suas particularidades."

Embora tida como doença pela OMS, uma das teclas batidas pelo movimento anti gordofobia é que nem toda pessoa gorda é uma pessoa não saudável.

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"Existem diversos parâmetros para avaliar a saúde além do excesso de gordura corporal, como exames bioquímicos, predisposição genética, fatores endócrinos, de hábito de vida e alimentação. É possível que existam pessoas com excesso de peso ou obesidade que não tenham alterações desses parâmetros com uma vida saudável, como apontam alguns estudos do The Journal of the American Board of Family Medicine", afirma a nutricionista Bianca.

De acordo com a especialista, ao analisar os impactos dos hábitos de vida saudáveis em indivíduos com excesso de peso e obesidade, o estudo percebeu que quando essas pessoas possuem um estilo de vida mais saudável elas obtém uma redução significativa na sua morbimortalidade e bons parâmetros de saúde. "Diversos fatores vão levar uma pessoa a ter determinado peso, a ausência de saúde nem sempre será um deles", pondera a nutricionista.

Magros e gordos com corpos não saudáveis

Da mesma forma que uma pessoa com excesso de peso ou obesa pode ser saudável, uma pessoa magra também pode ter um organismo não saudável segundo os especialistas.

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Por isso, a famosa frase "uma hora a conta chega" é válida tanto para pessoas gordas quanto magras. Afinal, tudo depende da forma como o corpo é tratado.

"Caso uma pessoa não tenha um estilo de vida saudável, acesso à saúde e alimentação adequada, uma boa qualidade de vida, além de bons parâmetros bioquímicos e psicológicos, independente da sua forma física, se for magra ou não, essa pessoa pode estar com sua saúde em risco", afirma Bianca. Formas de preconceito ao corpo gordo

Formas de preconceito ao corpo gordo

A gordofobia acontece está mais presente no dia a dia do que podemos imaginar. Existe a forma explícita e intencional do preconceito, com xingamentos e falas que são ditas com o claro propósito de ferir o outro. Entretanto, existe também o preconceito velado e situações sutis do cotidiano que acabam escondendo o quanto ainda é preciso desconstruir a visão sobre corpos gordos que ainda persiste em todos nós.

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Foto: Reprodução/Instagram
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"Já sofri preconceito dentro de transporte público, de a pessoa mandar ?ir mais pra lá?, ou se levantar quando eu sento para não ficar do meu lado. Tem situações que pessoas já verbalizaram também: uma vez no banco, na fila, uma pessoa não viu que eu já estava lá e eu discuti com ela. Essa pessoa respondeu, durante a discussão, que era ?impossível não ver você desse tamanho?", relata a ativista.

A gordofobia não é reproduzida apenas por estranhos. "Minha avó também já cometeu várias situações de gordofobia falando para eu usar cinta, dizendo que se eu não emagrecesse não arrumaria marido, emprego. Hoje não acontece tanto, mas na adolescência, nossa! As avós e mães foram criadas dentro dessa sociedade machista, racista e gordofóbica", analisa Mari.

Uma das experiências de preconceito mais emblemáticas citadas pela influencer foi durante a gravidez. Na hora do parto, Mari cita um episódio de gordofobia médica vivida por ela.

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"Quando eu fiquei grávida, teve médico que se negou a me atender. 'Eu não faço parto de gestante obesa', ele falou, basicamente, como se fosse um risco para ele. Na hora do parto mesmo, eu estava na mesa para ter minha filha e o anestesista ficava pedindo insistentemente para eu colaborar. 'Colabora, você sabe que seu caso é difícil. Colabora!' E eu ficava pensando no que mais eu podia colaborar. Eu já estava toda inclinada para frente para ele aplicar a injeção. Ele ficava gritando: 'traz a agulha de obeso, traz a agulha de gordo'. Me apavorando", relata Mari sobre o processo de dar à luz Valentina, sua filha de 3 anos.

Foto: Reprodução/Instagram
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Para Mari, a experiência que viveu durante o nascimento de Valentina deveu-se ao fato da mãe da menina ser gorda.

"Senti que foi puramente por eu ser gorda. Quando eu compartilhei o meu relato de parto no meu canal, tiveram milhares de perguntas [sobre ser uma grávida gorda]. Eu não tinha muita informação porque não tinha nenhuma pesquisa falando sobre gestante gordas. Eu procurei, mas é sempre um médico falando a porcentagem de mulheres gordas que têm complicações. Então eu criei um grupo no Facebook para trocarmos figurinhas sobre", finaliza.

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A ativista ainda cita outras forma de preconceito possíveis contra corpos gordos, como na indústria da moda - setor que ainda patina para entender como lidar com o público.

"Lembro de ir no shopping e não ter loja plus size; de ir em uma loja de departamento gigante e não ter um setor plus size. Para não ter essa descriminação, acho que não deveria ter um setor assim, mas uma numeração maior daquela roupa que eu quero comprar: do P ao G5, G6", diz a dona do canal sobre moda para pessoas gordas que tem 74,5 mil inscritos.

Ela também lembra como pessoa gordas são discriminadas no mercado de trabalho por não estarem dentro de um padrão estético aceitável. "Preferem contratar uma recepcionista magra do olho azul do que uma mulher gorda. Já falei captei relatos de pessoas [no meu canal] e teve uma menina que contou que falaram claramente que ela não passou em um processo seletivo porque ela era gorda. Ela compartilhou prints da pessoa que estava fazendo a seleção que dizia: 'olha, eu vou abrir para você, mas é porque você é uma pessoa gorda. E lá trabalhamos com muitos idosos, então não queremos negros, pessoa gordas'", conta Mari.

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Essa mesma gordofobia se repete na balada, quando o atendimento é dado a mulheres dentro do padrão em detrimento de mulheres gordas, e também nos meios de transporte quando não há conforto para pessoas gordas.

"Não é possível passar na catraca [de transporte público]. E tem o cinto do avião. Eu não sabia que tinha um extensor na minha primeira viagem, e falei para o comissário de bordo que o cinto não fechava em mim. Fui super discreta ao falar com ele. Mas o comissário deu um grito para pedir o extensor. Fiquei super constrangida. O assento de avião também é super apertado. É horrível."

Mulher, gorda e negra

Quanto mais recortes sociais feitos na vida de uma pessoa, mais incômodos tende a trazer na sociedade. Dessa forma, sendo mulher, gorda e negra, as oportunidade são cada vez mais escassas e o preconceito, maior.

"A gordofobia é mais difícil para a mulher porque a sociedade cobra mais da mulher. As mulheres gordas sofrem não só com a gordofobia, mas também com a pressão estética. até mesmo no meio plus size existe um padrão de mulher gorda. As marcas que estão se atentando às pautas de diversidade, incluindo mulheres gordas, contrata mulheres menos gordas, brancas e curvilíneas: mais busto, menos cintura e mais quadril", critica.

Essa desigualdade de oportunidades reflete na vida profissional dessas modelos. "Uma menina branca gorda do cabelo liso tem que trabalhar três vezes mais. Uma menina que é uma gorda maior, que é destoante do padrão, trabalha cinco vezes. Uma menina gorda, negra e com cabelo crespo, ela precisa trabalhar dez vezes mais", analisa Mari.

Essa dificuldade de oportunidades, principalmente a mulheres gordas e negras, Mari atribui ao racismo estrutural vigente no Brasil. "Quantas blogueiras negras você conhece? Por não termos representatividade, não há incentivo para que apareçam outras meninas."

Body positive e anti gordofobia

Em uma tentativa e luta para desconstruir o preconceito contra corpos gordos, atualmente dois movimentos atuam neste sentido: o body positive e o anti gordofobia.

Embora semelhantes e que lutem pelo fim da descriminação de corpos fora do padrão magro, é importante destacar que não são a mesma coisa.

"Os dois movimentos podem realmente confundir por terem algumas semelhanças. O body positive busca trazer uma positividade para os corpos grandes. Ele diz que está tudo bem ser grande: ser diferente daquilo que foi vendido do padrão, que é a pessoa alta, magra, do cabelo liso; daquilo que foi vendido", conceitua Mari Lima.

Já o movimento anti gordofobia visa combater o preconceito contra pessoas gordas. "No body positive, você vê outras pessoas usando a hashtag mesmo não sendo gorda. Dentro do plus size, há vários biotipos. Meninas que são número 44 são fora do padrão, mas não são pessoas gordas. O body positive, desse modo, é para enaltecer corpos diferentes", explica Mari, diferenciando a linha tênue entre os dois movimentos.

Como tratar corpos gordos sem preconceito

Na luta contra a gordofobia, Mari lembra que a batalha contra o preconceito não pode ser silenciosa.

"Combater não é só ficar quieto, mas corrigir quem está praticando a gordofobia. 'Anti' vem na frente de gordofobia para que tenhamos uma ação. Não é só para dizer 'não sou gordofóbico'. É para ter uma ação. Se eu acredito que cometer um preconceito contra uma pessoa gorda é errado, preciso fazer algo sobre. Não posso ver um colega ser motivo de chacota por gordofobia e ficar na minha", protesta a digital influencer.

Em sua vida, Mari realiza ações no dia a dia para que corpos gordos deixem de ter uma conotação negativa - tanto para ela, quanto para a sociedade.

"A primeira atitude para combater a gordofobia é mudar a minha concepção do que é ser gorda. Essa palavra tem que ser leve. Ser gorda é uma característica física", indica a influenciadora. "Busco trazer, por exemplo, para o universo da minha filha que baleia é um bicho maravilho, o elefante também, e desassociar esses animais de características físicas, porque não tem nada a ver", finaliza.

Despatologização da obesidade

Uma discussão que existe, atualmente, é a despatologização da obesidade, justamente pelo viés negativo que a categorização da obesidade como doença acarreta em pessoas gordas.

"Acredito sim que seja importante uma reavaliação de como essa patologização de fato tem contribuído, ou não, para a garantia da saúde de pessoas com obesidade, para assim desenvolver estratégias que garantam um acesso real à saúde e não gere tantas consequências negativas à essa mesma saúde", afirma a nutricionista Bianca.

Para o presidente do departamento de obesidade, não faz sentido retirá-la do rol de doenças e acredita que chamar uma pessoa de gorda é uma maneira equivocada de tratar um obeso.

Quanto a falta de políticas públicas voltadas a este público, o médico acredita que faltam esforços por parte das autoridades pela visão negativa que ainda prevalece sobre pessoas gordas.

"O obeso tem de ser respeitado sempre como qualquer pessoa. Ninguém é 'gordo' porque quer! Quanto a saúde pública, as ações são escassas, porque nossas autoridades ainda acham que obesidade é 'sem vergonhice'", enfatiza o médico Mário Carrara.

Para ele, esse quadro será revertido quando existirem medidas rigorosas para o controle do consumo de alimentos muito calóricos e pobres em nutrientes e se entender que doença se trata com medicamentos sérios e profissionais capacitados. Ele também cita a necessidade de precaução das mídias em promover fórmulas mágicas, medicamentos inadequados e dietas das artistas.

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