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Mães na pandemia: elas reinventaram para conciliar trabalho, maternidade e saúde mental

A maternidade não é simples, mas ser mãe na pandemia e ainda encarar as dificuldades do mercado de trabalho e cuidar dos filhos é um desafio diário

Por Hellen Cerqueira e Thaynara Moreira

Domingo, 10 de maio de 2020. Dia das Mães pouco depois de o Brasil ver portas de negócios e escolas se fecharam e o isolamento social imperar com o avanço da pandemia pelo novo coronavírus. Domingo, 9 de maio de 2021. Mais um Dia das Mães e ainda estamos em pandemia, com números ainda mais alarmantes que os do ano passado. E como é ser mãe diante disso tudo? É se reinventar!

Juliana e o pequeno Daniel (Arquivo Pessoal)
Juliana e o pequeno Daniel (Arquivo Pessoal)

Foram meses de escolas fechadas, incertezas, medos e culpas. Depois, meses de escolas abertas e ainda incertezas, medos e culpas, cada família à sua maneira. Para Juliane Souza, de 27 anos e mãe de Daniel, de 1 ano e 6 meses, o período ainda incluiu quatro mudanças de emprego - entre pedidos de demissão e ser demitida.

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Maternidade x mercado de trabalho na pandemia

A publicitária de Goiânia havia voltado ao trabalho, em 2020, depois da licença maternidade, na mesma semana em que foi decretado o fechamento obrigatório dos serviços não essenciais em sua cidade. Ela trabalhava em uma agência de publicidade e retornou às atividades em home office. O marido, funcionário de um cartório, seguiu no presencial e logo Juliane notou que não estava conseguindo trabalhar e cuidar do pequeno Daniel e decidiu sair da empresa, em comum acordo.

Aí veio o primeiro momento de se reinventar: deixar um emprego CLT e entrar como PJ em outra empresa, pois assim teria mais flexibilidade para cuidar do filho. "Eu sabia que, no momento, nenhuma empresa iria querer me contratar como CLT, já que meu filho ainda era bebê. Querendo ou não, isso impacta muito na escolha de uma contratação", desabafa.

No começo, a sogra a ajudava com a criança, mas com o avanço da pandemia e o medo de uma possível contaminação, ela voltou para casa, e Juliane passou a contar com o auxílio da irmã, de 16 anos. Ainda assim, a mãe precisava se desdobrar para trabalhar e levar o filho à fisioterapia - ainda aos três meses, Daniel foi diagnosticado com torcicolo congênito. "Além de eu ter que trabalhar de home office, precisava me deslocar três vezes por semana para levar ele para o tratamento", lembra Juliane.

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Para complicar, mais uma mudança de emprego. A agência na qual trabalhava perdeu clientes e ela foi cortada. Juliane, mais uma vez, recomeçou. Foi para outra agência, mas também logo saiu. Ela passou a prestar serviços a uma sorveteria como analista de marketing. Com a reabertura das escolas, e na tentativa de se envolver assiduamente com a empresa, ela deixou Daniel meio período em uma creche e na outra metade do tempo novamente com a avó paterna.

"Ele não se adaptou, chorava muito, não comia, perdeu peso. Ficou doente três vezes em menos de um mês", lamenta. Com isso, a publicitária decidiu tirá-lo do berçário. E, em março, aconteceu novamente: "Eu fui demitida do trabalho porque não estava conseguindo lidar com a questão. Ele tem essa necessidade de ter muita atenção. Toda vez que eu vou para o computador ele chora, se joga no chão", conta.

Home office e atividades on-line - tudo junto e misturado

Já a gerente de recursos humanos Olivia Amaral, de 39 anos, segue empregada e já passa de um ano no home office ao lado do filho Pedro Vinicius, diagnosticado aos 11 anos de idade com TEA (Transtorno de Espectro Autista). A mãe solo também encara seus desafios.

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Assim como Juliane, ela deixou de contar com ajuda na pandemia - antes a mãe ficava com Pedro depois da escola do garoto. "O Pedro sempre teve uma rotina bem estabelecida, com horários das refeições, atividades, etc. Então eu sempre tentei deixar tudo organizado pra ele, até porque ele é bem organizadinho também", detalha.

Entretanto, não foi fácil seguir assim nesse último ano - com trabalho em casa, aulas presenciais suspensas e uma pandemia lá fora. "Ele sentiu muito todas as mudanças que aconteceram e consegui notar isso principalmente por ele ter ficado inquieto e bem confuso até", fala Olivia.

Além de manter o trabalho em dia, a moradora da zona norte de São Paulo se viu na tarefa de estimular o aprendizado do filho. "O Pedro sempre foi curioso, então o maior desafio pra mim foi tentar continuar estimulando toda essa curiosidade dentro de casa".

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Sem escola e com terapias e atividades de Pedro transferidas para o modo digital e remoto, Olivia acompanha diariamente e de perto a rotina do filho, tentando dar todo o suporte e apoio necessário, mas entendendo também que não é capaz de suprir alguém capacitado. "Volta e meia ainda bate uma culpa por sentir que não estou fazendo as coisas direito, que não estou sendo suficiente em ajudar ele, mas eu tento não me deixar levar por isso".

Culpa, desilusão e medos e como superar tudo isso

Juliana e Daniel entre trabalhos e mamadas (Arquivo pessoal)
Juliana e Daniel entre trabalhos e mamadas (Arquivo pessoal)

Se para Olívia veio o sentimento de culpa na maternidade em meio à pandemia, Juliana encarou a decepção depois de mais uma demissão. "Eu me senti uma péssima profissional, porque eu estava tentando ao máximo ali, deixando meu filho com a minha sogra, me desdobrando para poder conseguir fazer alguma coisa, e ainda assim não estava sendo suficiente", comenta.

As duas mães - e tantas outras - buscaram novos caminhos e opções. Olivia ainda tenta encontrar a melhor forma de conciliar trabalho e os cuidados com Pedro, sem descuidar de si. "Eu tento muito deixar ele tranquilo e não demonstrar quando estou triste ou com medo porque sei que o afeta e, ao mesmo tempo, sei que preciso tentar não me isolar dentro de mim, não ficar fechada e não conseguir me comunicar com ele".

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Ela continua: "Nós sempre conversamos muito e sempre tivemos uma troca, então isso facilitou muito. Expliquei com jeitinho pra ele o que estava acontecendo, e porque ele não podia ir pra escola e nem ir ver a avó."

Juliane decidiu colocar em prática uma ideia que tinha desde a gestação de Daniel: empreender. "A Astrid surgiu no meio do caos mesmo, quando eu vi que não conseguiria trabalhar para alguma empresa". Astrid é uma empresa de marketing digital idealizada por Juliane e focada no protagonismo feminino. Mesmo com o empreendimento, ela ainda está em busca de uma recolocação no mercado de trabalho, a fim de obter renda suficiente para continuar empreendendo tranquilamente.

Um desejo para esse Dia das Mães? "Eu acho que mais mães precisam ser ouvidas. Porque eu imagino que seja difícil para todo mundo, só que para quem está com uma criança pequena ou adolescente em casa, tendo que lidar com home office e escola, é muito mais complicado, sabe", diz a mãe. Enquanto isso, Daniel segue ao seu lado e no seu peito. "Escolhi amamentar meu filho até dois anos ou mais. Eu quero passar mais tempo com ele, participar de todo o processo dele", completa.

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