Dismorfia do Instagram: como os filtros afetam a autoestima?

Uso da ferramenta de edição de imagens afeta a percepção de beleza e leva muita gente a buscar pela perfeição no visual

Os filtros de aplicativos como o Instagram são ferramentas divertidas e que, a princípio, surgiram como uma forma de descontrair as interações digitais. Assim, aquela foto simples de antes passou a ser uma selfie com orelhas de gatinho, com maquiagem pronta e até com olhos de outra cor.

No entanto, indo muito além da diversão, alguns filtros foram criados para eliminar qualquer tipo de "imperfeição" no visual dos usuários. E é justamente sobre os problemas causados por esse aspecto da exposição aos filtros que trata o estudo publicado pelo Journal of The American Society of Plastic Surgeons, em 2019.

Segundo a pesquisa, a busca por uma beleza próxima àquela fornecida pelos filtros de aplicativos pode estar provocando o transtorno disfórmico em jovens, ou seja, uma onda crescente de dismorfia corporal - que pode levar a quadros de transtornos alimentares, ansiedade, depressão e busca por procedimentos estéticos radicais e desnecessários.

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Dismorfia do Instagram

Por conta da mania lançada nas redes sociais, o fenômeno vem sendo chamado também de "dismorfia do Instagram". Como o próprio nome o descreve, os recursos usados no aplicativo "filtram" tudo aquilo que possa ser encarado como um defeito no visual (seja uma pinta, uma mancha, uma olheira ou qualquer outro detalhe). E é aí que se encontra o problema.

Motivados pelo efeito, muitos usuários buscam na vida real a aparência que os filtros proporcionam nas fotos, na tentativa de concretizar uma imagem que só existe no virtual. É a necessidade de incorporar a figura que a própria pessoa aprova e determina que possui a tal beleza almejada.

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"Vivemos numa sociedade que prega a juventude eterna, ou seja, a ausência de qualquer tipo de sinal que possa revelar a verdadeira idade. A indústria de produtos de beleza e dermocosméticos cresce exponencialmente e os padrões exigem cada vez mais a perfeição", explica a psicóloga Sirlene Ferreira.

Sinais de alerta

De acordo com a especialista, as pessoas mais influenciadas negativamente por essa exposição são aquelas que ainda não têm uma personalidade forte formada (como crianças e adolescentes), autoestima rebaixada, pouca autoconfiança, carência afetiva e muita insegurança.

É possível identificar esses quadros quando a pessoa passa a evitar contato social, se nega a atender chamadas de vídeo, não permite ser fotografada e expressa descontentamento constante com a própria imagem. Nesses casos, é comum que se demonstre ausência de amor próprio e nunca aceite elogios.

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"Por isso, eu chamo a atenção para as pessoas que convivem com amigos ou familiares com essas características, pois essas pessoas precisam de ajuda profissional", afirma Sirlene. De fato, caso não recebam algum tipo de orientação ou auxílio, esses indivíduos podem tomar atitudes extremas, que geram impactos físicos e mentais.

Muitos cirurgiões plásticos identificam esse quadro nos pacientes que os procuram e até mesmo se negam a realizar procedimentos desnecessários. É frequente que essas pessoas recebam encaminhamento médico para psicoterapia, como forma de encontrar e tratar a verdadeira origem do descontentamento com sua forma física.

"Não é possível criar regras para quem pode ou não ter acesso a essa ferramenta, o que podemos fazer é prestar mais atenção nas exigências que algumas pessoas fazem de si mesmas", explica a psicóloga. Se uma espinha no rosto impede alguém de ter contato até mesmo com a própria família, pode ser um sinal muito revelador de que algo não está certo.

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Redes sociais e padrões de beleza

De acordo com Sirlene, é preciso deixar claro que a ferramenta de filtros do Instagram não é responsável pelo descontrole de quem a utiliza. Isso porque a rede é um veículo poderoso para divulgar serviços, informações e até negócios - mesmo que sejam associados a imagens "falsas", corrigidas por aplicativos que escondem imperfeições.

Mas, ao se depararem com tantos rostos e corpos "perfeitos", indivíduos mais sugestionáveis começam a se comparar com aquela imagem inatingível e passam a se sentir inadequados. A questão, porém, é que dificilmente será possível evitar essa exposição aos filtros e padrões de beleza, uma vez que eles estão em todos os lugares.

Saiba mais: Padrão de beleza: está na hora de amar nosso corpo ao invés de escondê-lo

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Apesar da fama pelos filtros, o Instagram não é a única fonte que pode desencadear alterações negativas na percepção da própria beleza. Em qualquer rede social, quando se vê a foto de uma pessoa com pele lisa, nenhuma celulite, músculos definidos, barriga negativa e nenhum defeito perceptível, a tendência é o desejo a se igualar ou até mesmo ultrapassar aquela perfeição.

Assim, a beleza deixa de ser somente um fim para ser um meio para alcançar a felicidade. "Nossa mente trabalha rápido e entende que se quisermos ser felizes, precisamos alcançar aquele padrão de beleza", afirma a psicóloga Lucia Moyses.

No entanto, quando o indivíduo olha no espelho, é comum que se perceba distante desse padrão que deseja. Mesmo uma pessoa considerada bonita por muitos sabe que tem imperfeições. Porém, incapaz de chegar à perfeição das imagens que vê, ela passa a se tornar obsessiva com seus defeitos e essa obsessão levar ao transtorno dismórfico.

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Como evitar o problema?

Primeiramente, é necessário entender que os filtros não são a causa da questão. O problema está intrínseco no ser humano e a ferramenta pode ser um gatilho para tornar esse tema público entre familiares e amigos.

Elevar a autoestima, desenvolver o autoconhecimento e fortalecer a personalidade própria são passos essenciais para evitar o surgimento da dismorfia. É recomendado também valorizar outras qualidades importantes.

"Dessa forma, tornar-se perfeito fisicamente não será fundamental e, sim, ter resiliência, flexibilidade, inteligência, empatia, simpatia, saúde, alegria e outras qualidades que muito mais provavelmente levarão à felicidade e realização pessoal", aconselha Lucia Moyses

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No caso dos adolescentes, parte desse processo cabe aos pais, professores e psicólogos, uma vez que essa idade é muito crítica, com mudanças hormonais, forte sentimento de pertencimento e transição do estado infantil para o adulto, tornando difícil para os jovens descobrirem sozinhos os efeitos da imposição de padrões de beleza.

"Quando as pessoas tiverem ciência de que a perfeição estética não é tão importante assim e de que a beleza está nas diferenças e na imperfeição, não será preciso mais temer os filtros do Instagram", conclui a psicóloga. Até lá, lembre-se que nem tudo o que vemos nas redes sociais é, de fato, real.

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