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Características do TOC são universais

Lavagem compulsiva e não pisar em riscas são as mais comuns

Há cerca de uns 15 anos o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) era uma doença considerada rara, chegando a uma prevalência de 0,05%, durante a vida. Com o passar dos anos, inúmeras pesquisas e estudos epidemiológicos foram feitos sobre o TOC e hoje chegamos a uma prevalência de 0,6%, fazendo do TOC a quarta doença psiquiátrica mais comum, só perdendo para as fobias, abuso e dependência de drogas e depressão maior.

O TOC é considerado uma doença de grande importância para a saúde publica, seja pelos prejuízos sociais que acarreta, seja pelo sofrimento que causa aos pacientes e às suas famílias. Era chamada de "a loucura da dúvida".

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), o TOC está na lista das DEZ doenças, de todas as especialidades, que maior impacto tem sobre a incapacitação social. Entre fatores que causam os gastos indiretos temos a incapacidade para o trabalho, impacto sobre a família, aposentadoria precoce, etc.

Em amostra de mais de 100 pacientes brasileiros, 30% destes encontravam-se inativos em conseqüência da doença, sem trabalhar e/ou estudar. Já estudos feitos nos EUA concluíram que aproximadamente 2% dos suicídios podem ser atribuídos ao TOC, com ou sem comorbidades.

O TOC parece atingir igualmente homens e mulheres, ao contrário da maioria dos transtornos ansiosos, como o pânico e o da ansiedade generalizada, que afeta muito mais mulheres que homens. O TOC tem inicio mais precoce nos homens.

A maioria dos estudos realizados em todo o mundo converge em apontar para as mesmas taxas de prevalência do TOC, não só em termos de epidemiologia, mas notável é a consistência nas taxas de prevalência, idade de início e comorbidades, entre os estudos, dando suporte à validade e à universalidade do TOC.

Em todos os trabalhos feitos nos mais diferentes países e culturas (Índia, EUA, Uganda, Egito, Japão, Dinamarca, Espanha, etc.), obsessões de contaminação e agressão (medo de furtar e prejudicar ou machucar os outros) e compulsões de limpeza e verificação foram as mais freqüentes.

Impressiona a semelhança dos sintomas em todas as regiões demográficas, quanto à forma e conteúdo: rituais de lavagem, preocupação com demarcação de limites (fechar portas, janelas, não pisar em riscas, saltar sobre divisões nas calçadas, etc.), obsessões e compulsões de ordem e simetria, colecionamento, medo de impulsos sexuais e agressivos, escrúpulos morais, exagero do sentimento de responsabilidade (e a culpa subseqüente), exagero do sentimento de fragilidade (medo de doenças, contaminações, etc.), pensamento mágico (onde o pensar equivale ao agir), necessidade de anular magicamente as conseqüências dos pensamentos obsessivos, etc.

Obsessões de contaminação preocupação de não encostar as mãos e vestes em nada que possa sujá-los

Escrúpulos preocupação excessiva em nunca errar as contas para não prejudicar fregueses, não reter nada que pertença a outrem;

Dúvidas patológicas ter de perguntar (à empregada, por exemplo) repetidas vezes se de fato realmente fez o que devia;

Compulsões de limpeza e lavagem lavar as mãos inúmeras vezes, rituais para o ato de tomar banho, sacudir as roupas para tira a sujeira ou lavá-las sempre que for vesti-las

Rituais de verificação checar os móveis, cômodos, repetidamente, vendo inclusive se as frestas ou dobras não contém sujeira ou poeira;

Compulsão de contar contar em voz alta ou baixa o número de vezes que repete certos gestos até chegar ao número "suficiente" de vezes;

Compulsões de ordenação e simetria antes de escrever, por exemplo, sacode o papel, alinha canetas e lápis, ordena a escrivaninha.

Duas características são marcantes do TOC embora nem sempre presentes são a crítica e a resistência. Em momento nenhum o paciente perde a lucidez e s razão, reconhece o ridículo de suas apreensões, o absurdo de suas precauções. Não só faz esforços para vencê-las, mas busca os meios mais desagradáveis que ele crê que possam ajudá-lo a triunfar sobre suas apreensões e precauções. Aparece muito comumente o conceito do sujo e do imoral, equivalentes à sujeira física e à moral (o impulso de roubar, ofender). No TOC, os conceitos de sujeira física e moral tornam-se inextricáveis e muitas vezes intercambiáveis. Isso é visto na obra de Shakespeare, na Tragédia de MacBeth, onde limpeza = pureza e sujeira = crime. Tudo no TOC se deforma e degrada-se e precisa ser repetidamente ordenado, refeito ou purificado.

Muitos pacientes com TOC, presos no passado, não conseguem concluir sua tarefa, e ficam em constante e atormentada ação (sentimento de incompletude). Todos os estudos convergem para o fato de ser o TOC uma doença universal, com características clínicas muito semelhantes e muito provavelmente o mesmo substrato biológico.

As obsessões de contaminação e agressão e as compulsões de limpeza e verificação são sintomas universais do TOC, independentes de diferenças geográficas, históricas, étnicas, culturais e econômicas.